Técnicas

Embate das cores

Empresas de tratamento de superfície investem em tecnologias, novas fábricas e controle de processos, e na “disputa” entre anodização ou pintura quem ganha é o mercado

04/01/2017
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Com brilho ou fosco? Talvez o bronze. Mas, se quer facilidade para combinar, então o caminho é escolher o branco. Ou preto? Já viu o vermelho? – Pode parecer um papo sobre moda, mas as tendências que embalam o segmento de tratamento de superfície seguem a mesma lógica da alta costura: design, cores em evidência e, acima de tudo, rigor com a qualidade.

Na hora da escolha, há quem diga que o tema é polêmico: anodização ou pintura? Ambos os processos de beneficiamento de alumínio já são muito difundidos, mas possibilidades de aplicação nos mesmos nichos acabaram dando aos segmentos o ar de “concorrentes”. As empresas desmistificam a “rixa” e a sentença é clara: “é ao gosto do cliente”. Caio Poscidonio, gerente comercial da Tecnalum, empresa de anodização, reforça: “É preciso levar em consideração muitos fatores, como a aplicação do projeto, valor agregado do produto, expectativas com design, etc”. Cerca de quinze anos atrás, a anodização era a principal opção do mercado, no entanto hoje estima-se que detenha apenas 30% de participação, com a pintura na outra ponta com 70%.

O crescimento da aplicação do processo dentro do setor de construção civil foi justamente por causa de uma cor: a branca. Devido a facilidade de harmonização dentro dos projetos, ela caiu na graças dos arquitetos e dominou o mercado. O branco é uma das cores que somente é possível obter pelo processo de pintura. Isto porque, como se fosse uma tatuagem, a anodização é a transformação da superfície do alumínio em óxido de alumínio, que cria uma camada de proteção no metal, garantindo durabilidade e resistência.

Mas a oferta de cores é limitada — variando tradicionalmente dentro de uma faixa que vai do champagne até o preto. Ainda é possível obter outros tons, como o bronze, verde, azul, titânio e selênio pelo processo de interferência. Com a chegada dos corantes orgânicos ao mercado, a gama de cores foi ampliada – embora com certa perda de resistência do acabamento às intempéries. Mas ainda assim, as infinitas possibilidades de cores que a pintura eletrostática oferta garantiram definitivamente seu espaço.

“Por mais difícil que possa ser dizer isso, em um determinado momento nós tivemos esse pensamento: parecia que o mercado estava migrando para pintura e a anodização caminhava para virar apenas uma lembrança do passado”, recorda Guilherme Simoneli, diretor comercial do Grupo Olga Color. A empresa ​inaugurou em 2016 a fábrica de Jacutinga, em Minas Gerais, c​om linhas de extrusão, anodização e pintura eletrostática a pó. Ele conta que nos últimos três anos a anodização “renasceu” e hoje esse cenário não chega nem a ser uma hipótese. “Os escritórios de arquitetura começaram a especificar cores metálicas em seus projetos e, por mais que você utilize tintas metálicas em pintura, nunca se chegará ao mesmo efeito visual. A anodização tem seu charme próprio”, diz.

Em alta

O acabamento tem sido mais valorizado, graças a um amadurecimento do mercado de construção civil — um dos principais consumidores de produtos anodizados ou pintados. A chegada de novos profissionais mais arrojados tem dado vazão às possibilidades que o setor oferece. “A grande busca hoje é por produtos que sejam eficientes e funcionais”, afirma Paulo Henrique Cuconati, arquiteto e urbanista da Pagama Arquitetura. Segundo ele, a tendência é o acabamento em efeito amadeirado, “mas as cores padrões — branco, preto, grafite — são sempre muito utilizadas e nunca perderão posto no mercado”.

“O que vemos é um resgate do que já foi sucesso”, sinaliza João Graciolli, consultor master da AlTotal e diretor técnico da Rometal Perfilo, fabricante de componentes anodizados. Graciolli, que participou da Aluminium 2016, em Messe Düsseldorf (Alemanha) – principal evento mundial do setor do alumínio – conta que vem acontecendo uma nova valorização do anodizado natural. “O brilho está em alta e o alumínio ainda mais em destaque nos projetos, apresentado na frente”, ressalta. Já para pintura, o destaque se confirma para o efeito amadeirado.

Antônio Magalhães, responsável pelo comercial-técnico da Prodec, endossa: “Hoje, minha produção está quase toda voltada para atender esses pedidos. Tivemos um crescimento superior a 35% na demanda pelo acabamento amadeirado para residências de alto padrão em 2016”, conta. O efeito, que pode ser obtido por processos de pó sobre pó ou sublimação — em que o perfil entra em uma estufa e a vácuo um transfer marca o padrão da madeira —, não é exatamente uma novidade no mercado. A tendência tem sido crescente entre o arquitetos, que cada vez mais têm optado por tons coloridos, embora o branco ainda siga como líder — presente em cerca de 50% do pedidos, como sinaliza Magalhães.

Mesmo com o ano reticente, o movimento no segmento AAA tem sido um fôlego importante nas empresas prestadoras do serviço e o setor tem investido no potencial: “Tenho certeza absoluta de que Ezy Color no Brasil irá produzir em 2021 os mesmos volumes da Itália só de pintura efeito madeira”, sinaliza Alessandro Resch, CEO do Grupo Ezy Color. No mercado brasileiro desde 2013, a companhia inaugurou uma nova planta em 2016, na cidade de Capivari, interior de São Paulo, fruto de um investimento de R$ 20 milhões. “Instalamos os melhores equipamentos de pintura do mundo para troca rápida de cor da SAT SpA e estamos oferecendo as cores RAL — uma explosão de cores!”, conta.

 

Investimentos

Para acompanhar a demanda, as empresas do setor investem na ampliação de suas capacidades e atualização de sua produção. “Na linha de pintura adquirimos uma nova cabine de pintura a pó para acabamento colorido e na anodização sistema de refrigeração para os tanques”, enumera Claudio Martins, diretor comercial da Anobril.

Fabricante nacional de equipamentos para sistemas de pré-tratamento de superfícies, a Erzinger sinaliza que o mercado tem apostado em novas tecnologias e equipamentos. “Neste ano instalamos nossa primeira Linha de Pintura de Perfis de Alumínio na Vertical, especialmente desenvolvida em parceria com a Hitech para nosso cliente Metaperfil em Mirassol, interior de São Paulo. Trata-se da primeira linha vertical com pré-tratamento fabricado em polipropileno autoextinguível, uma inovação neste segmento que possibilitou a redução da aplicação de 8 para 5 estágios na preparação da superfície dos perfis, o que reduz a quantidade de produtos químicos e controles da linha”, explica Luiz Henrique Kondlatsch, gerente de vendas da Erzinger.

Carlos Eduardo Casasco, diretor industrial da Perfil Alumínio do Brasil, também sinaliza investimentos: “no segmento de anodização estamos expandindo nossa capacidade e na linha de pintura estamos adquirindo uma linha vertical italiana”. Ele diz que o grande diferencial da empresa é a linha completa: extrusão, anodização e pintura em uma só planta.

Graciolli endossa que, a exemplo do que tem ocorrido no mercado europeu, o caminho é que cada vez mais empresas ofereçam os produtos de alumínio já com o acabamento e quem não tiver tratamento de superfície, nos próximos anos, não vai se posicionar. A tendência é cada vez mais extrusoras com linhas de acabamento. “O que antes era luxo, hoje é uma necessidade de se posicionar”, diz. Isto porque a qualidade da extrusão é fundamental para o desempenho do produto final, principalmente no caso da anodização. O tratamento revela os “defeitos” nos perfis, como marcas e manchas.

Competência

Com foco no atendimento do setor moveleiro, a Rometal tem seu crescimento nos últimos três anos sustentado no diferencial de soluções sofisticadas para o setor. “Buscamos a excelência, por isso investimos em uma extrusão específica com foco em acabamento, com uso de ligas especiais e rigoroso controle de processos e defeitos. Temos o que há de mais sofisticado no Brasil hoje”, explica Graciolli.

Segundo ele, o parque industrial brasileiro está equiparado em qualidade e tecnologias à Europa e ao restante do mundo. “Não devemos nada”. Um dos participantes do desenvolvimento e instalação do projeto, Graciolli recorda que o Brasil é o detentor da maior planta de anodização horizontal do mundo: a da Companhia Brasileira de Alumínio (CBA).

“Nosso complexo é o primeiro e único a conquistar dois selos reconhecidos mundialmente: o Qualicoat, de qualidade em processo de pintura, e o Qualanod, de qualidade em anodização”, confirma Ricardo Andretta, gerente de contas estratégicas – Construção Civil e Bens de Consumo da CBA.

No que compete a chapas para anodização, a Novelis foca esforços para garantir o nível de qualidade exigido no procedimento. A anodização é um processo que necessita alto grau de pureza e uma superfície de metal livre de óxidos. Isto é o que assegura uma anodização uniforme e sem defeitos. “Nossas placas passam por um processo de faceamento e toda a camada de óxidos é removida antes do início do processo de laminação. Para produtos Anodizing Quality, como o mercado de embalagens, esta camada faceada é ainda mais espessa”, explica Fernando Wongtschowski, gerente de marketing da Novelis América do Sul.

Já para materiais pré-pintados, existe um grande potencial para o crescimento, especialmente no Brasil, onde o consumo per capita ainda é muito baixo quando comparado ao de outros países, como é o caso dos Estados Unidos, Alemanha e França. “A Novelis também possui o que existe de mais moderno no mundo em termos de equipamento para pintura; a qualidade do material produzido na planta de Pindamonhangaba é considerado ‘world class’”, conta Wongtschowski.

Cuidados

A qualidade dos processos é um dos principais pontos de preocupação e discussão do setor. Como explica Magalhães, da Prodec. “O pré-tratamento exige uma liga de 98% de pureza. Caso contrário, compromete-se a aderência da tinta, que ocasiona o destacamento, possibilitando a corrosão no corte e acelerando o processo de corrosão filiforme. Já no caso da anodização, acelera o processo de formação de ‘pits’ de corrosão”, explica.

Atualmente, o setor vem passando por um processo importante de revisão da norma que especifica a espessura da camada anódica, a ABNT NBR 12.609 que indica 11 a 15 microns para zona urbana/rural (A13), 16 a 20 microns para zona marítima (A18) e 21 a 25 microns para zona industrial (A23). A norma para o setor de pintura já foi aprovada é de suma importância, pois vem para disciplinar o segmento. O incentivo e fiscalização de boas práticas é fundamental para o amadurecimento e evolução do setor e reflete diretamente não só no desempenho do produto final, mas também na segurança de suas aplicações.

Luiz Carlos Junior, diretor da Starcolor, empresa de anodização e pintura eletrostática, endossa: “O principal erro cometido pelo mercado é esquecer da qualidade por conta de custos. É lógico que uma empresa consolidada, que utiliza os melhores produtos químicos, as melhores tintas, investiu nos melhores maquinários e possui os melhores controles, terá um custo operacional superior. Entretanto, o risco assumido por conta da escolha do mais barato é extremamente alto, muito maior que qualquer desconto no beneficiamento”.

Com o controle adequado de processos e uma manutenção básica preventiva, que requer apenas em limpeza simples — com água e sabão — a durabilidade e a resistência dos tratamentos de superfície podem superar a casa dos vinte anos, ou mais. “Na Itália, há uma cúpula de igreja que é anodizada e está em perfeito estado — e data mais de 125 anos”, exemplifica Adeval Meneghesso, engenheiro e sócio da Italtecno do Brasil, fabricante de produtos químicos e soluções para tratamento de superfície.

Ele reforça que ainda há muitos mercados pouco explorados no Brasil, com potencial de crescimento, principalmente para anodização. “Temos uma aplicação inexistente no segmento de implementos rodoviários. O que na Europa é extremamente comum: carrocerias anodizadas em cores. É preciso conscientizar o mercado sobre o valor agregado desse tipo de aplicação, os ganhos não somente em estética, mas, principalmente, em resistência”, diz. Meneghesso também sinaliza as oportunidades no segmento de embalagens, principalmente para a área de perfumaria premium.

Caio Poscidonio, da Tecnalum, endossa: a empresa, que se mudou para uma nova planta recentemente, registrou em 2016, apesar da crise, um crescimento de 35%, graças ao atendimento ao setor técnico e decorativo: itens para motocicletas e setor automotivo, iluminação, linha “branca” — como puxadores de fogões. Ele recorda um caso interessante sobre a importância de se levar em consideração todos os fatores na hora de optar por um projeto.

“Uma vez no shopping fui a uma grande marca de cosméticos e notei que as tampas das amostras eram de alumínio pintado e estavam descascadas. Por ser um produto de valor agregado, acabei apresentando as vantagens da anodização para a marca e eles alteraram o acabamento”, recorda. Assim, como na moda, as tendências dos beneficiamentos vêm e vão. No final, o que importa é “vestir” o alumínio com qualidade e estilo.

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