Reciclagem

Na esteira da sustentabilidade

Setor de reciclagem brasileiro investe cada vez mais em inovação para impulsionar os processos de logística reversa de alumínio

Carolina Rossini 05/05/2016
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Enquanto o país se mantém líder mundial na reciclagem das latinhas para bebidas, que ultrapassa o índice de 97%, o trato com os outros produtos ainda passa por dificuldades que vão desde a conscientização do consumidor comum, de como deve ser feita a separação doméstica, até a questões governamentais.

Em 2013, o Brasil reciclou 540 mil toneladas de alumínio, sendo mais de 50% desse número representado pela recuperação de latas. Os demais correspondem à sucata industrial e aos outros segmentos de materiais como placas ACM, embalagens, peças fundidas de automóveis e esquadrias de janelas.“Falta uma política de governo definida para este setor. É só observar os projetos de sucata nos Estados Unidos. Aqui isso não existe, fica tudo no campo do mercado”, afirma Luiz Melo, do Grupo Melo, empresa que faz a logística, preparação e comércio de sucatas de metais não ferrosos.

Com a crescente demanda por sucata de alumínio, as empresas buscam parcerias, de-senvolvem soluções em tecnologia e investem em inovação dentro de sua cadeia pro-dutiva, para poder beneficiar os negócios e o mercado no geral.

Antônio Siqueira, do departamento comercial do Pro Lab Ambiental, especializado na reciclagem de tubos de alumínio para aerossol, conta: “Atualmente, reciclo 5 toneladas de alumínio por mês”. Ele acredita que, assim como acontece com as latinhas, os demais resíduos de alumínio podem atingir um alto índice de recuperação, mas levará tempo.

O empresário aponta que, atualmente, de 1 bilhão de unidades de aerossol consumidas anualmente, sejam recicladas menos de 1%. “Há muita produção e pouca logística reversa. Sabemos que é necessário, mas necessitamos de parceiros”, completa Siqueira.

É o caso da Lotus Metal, que trabalha em conjunto com a empresa de extrusão Steeltech, que fabrica 80% de todos os perfis distribuídos pela Lotus. “Mais de 50% do material utilizado na produção é derivado do reaproveitamento de alumínio. Além disso, há um rigoroso controle de captação da matéria-prima”, conta José Carlos Noronha, gerente geral da Lotus, empresa que trabalha na coleta ou compra de alumínio na ordem de 1.300 a 1.500 toneladas, anualmente.

Do mesmo modo age a Novelis, que mantém contratos comerciais com fornecedores dentro e fora do país.“Em 2014, concluímos um investimento de US$ 46 milhões na expansão de nossa operação de reciclagem, para suportar a estratégia de aumentar o conteúdo reciclado em nossos produtos”, diz Luide Reis, gerente de Negócios de Reciclagem.

Inovação

Consciente das dificuldades do setor, Siqueira, da Pro Lab, lembra da importância da colaboração da sociedade, para que a separação correta seja feita e facilite a logística reversa. “No futuro, haverá aterros para a coleta do que foi perdido, mas é preciso uma tecnologia de separação e muito investimento”, prevê o empresário, que mantém uma parceria com o Instituto GEA, uma organização não governamental atrelada à questão dos resíduos e cooperativas.

“Todo tipo de inovação que surja para otimizar os processos e aumentar a capacidade de produção é bem-vinda”, avalia o executivo da Pro Lab. A companhia aposta em máquinas de despressurização dos aerossóis, previstas para o início de 2016. Com elas instaladas nas cooperativas, os próprios catadores poderão fazer este trabalho, de maneira segura e com a devida remuneração.

“O grande vilão é o transporte. Passamos pelo estado inteiro retirando o material, trazemos para a empresa e produzimos a despressurização. Isso é muito caro”,diz Siqueira.

Futuro

As empresas acreditam no valor da sustentabilidade e que, de fato, vale a pena continuar investindo em processos de logística reversa para recolocação dos produtos no mercado – a sucata de alumínio está cada vez mais concorrida. “O futuro mostra claramente que reciclar é a melhor solução para obter a matéria-prima alumínio. O mercado continuará demandando o consumo, portanto, a cada ano, as sobras e os resíduos do metal continuarão crescendo”, analisa Noronha, da Lotus Metal.

Querendo ampliar sua participação neste mercado, a Votorantim Metais – CBA adquiriu em 2010 a Metalex, especializada na reciclagem de sucata proveniente principalmente do setor automotivo e da construção civil. “O que resultou em um aumento da fabricação de tarugos de alumínio de 48 mil toneladas anuais para cerca de 65 mil toneladas anuais”, aponta Heber Pires Otomar, gerente de desenvolvimento de mercado da Votorantim Metais.

Com metas ambiciosas, a Novelis também se baseia na importância que a sustentabilidade possui. “Nosso centro de pesquisa está sempre em busca de novos processos, a fim de tornar nossos produtos mais sustentáveis, impactando cada vez menos o meio ambiente”, explica Luide Reis, gerente de negócios de reciclagem da empresa.

Em 2014, eles alcançaram 49% conteúdo reciclado em seus produtos e querem chegar a 80% até 2020. Para isso, é preciso desenvolver modelos de fabricação e reciclagem de ciclo fechado, além de diversificar fontes e tipos de sucata. “Isto afeta quase todos os aspectos de nosso negócio: do design dos produtos e portfólio à estrutura da cadeia de suprimentos e o relacionamento com os clientes”, conclui Reis.

Há pouco mais de três anos trabalhando com a logística reversa, a Pro Lab começou com a reciclagem de 300 kg mensais e, hoje, tem a previsão de chegar a 15 toneladas recicladas por mês – apostandono aumento da demanda dos clientes e em novas negociações.

Atualmente, a logística reversa arca com impostos municipais, estaduais e federais que, somados, chegam a R$ 2,9 bilhões, em valores de 2013, de acordo com um estudo realizado pela LCA Consultores a pedido da Confederação Nacional da Indústria (CNI). O que significa que boa parte da responsabilidade do sucesso e crescimento do setor está nas mãos do governo, que pode estabelecer novas regras para o mercado e estabilizar os preços.

Tecnologia de separação

De olho nas oportunidades do mercado de sucata brasileiro, a TOMRA Sorting trouxe para a América Latina a tecnologia da x-tract [XRT], que recupera metais através de sensores. Com sistema de raios X e sensores de peso, densidade e composição elementar, o equipamento separa o alumínio de outros metais pesados com precisão e rapidez, conseguindo purezas materiais de até 98%. “Estamos aprendendo com práticas de países da Europa e Japão, que estão muito avançados na reciclagem de alumínio,não apenas de latas e materiais pós-industriais, mas aquele encontrado na sucata de obsolescência e adequando-a para realidade brasileira”, explica a empresa.

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