Transportes

Alta resistência

Na busca por novas ligas, mercado militar investe em áreas de pesquisa e desenvolvimento das grandes empresas do alumínio

05/01/2017
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O termo “alumínio militar” é recorrente no setor automotivo. Com certeza você já ouviu falar de carros que contam com esse tipo de tecnologia em ligas extremamente resistentes e diferenciadas. É o caso da picape F-150, da Ford. À época de seu lançamento, quase dois anos atrás, esse fator dividiu opiniões, pois muitos especialistas e consumidores questionaram a veracidade da informação, também por terem certo preconceito com o metal. “As pessoas não sabem do potencial que o alumínio apresenta quando passa por um processo de engenharia e apresenta resultados impressionantes em capacidade física”, comenta Jason Saragian, diretor de comunicação da Aleris, empresa americana que fornece material para o setor de defesa e também automotivo.

Ligas como as séries 5xxx e 6xxx, encontradas na F-150, também são utilizadas nos Bradley Fighting Vehicles, veículos de infantaria do exército norte-americano. “Não é apenas uma questão de estar ou não em um ambiente de combate, mas sim de ter à disposição a melhor tecnologia e liga possíveis”, justifica Doug Richman, da Aluminum Association. Outro exemplo da aplicação é o Audi A8 L Security.

Considerado o modelo mais seguro da história da marca, já que é blindado, à prova de explosivos e resistente à granadas de mão. O carro possui uma estrutura de alumínio denominada Audi Space Frame e soleiras laterais em alumínio, com perfis à prova de bala. “Os produtos militares requerem leveza, resistência e, principalmente, segurança. Por que para o mercado automotivo os padrões não seriam os mesmos?”, questiona Josée Robert, gerente de comunicação e marketing do setor aeroespacial e de transporte da Constellium.

TRADIÇÃO

Essas características do alumínio fizeram com que o metal construísse uma história de parceria com o setor militar, que data do final do século 19, quando o governo francês buscava melhorar sua capacidade de defesa e encomendou barcos torpedeiros feitos com o material. E as vantagens do alumínio foram cruciais para criar uma cultura de colaboração entre os setores, como aconteceu em 1950, quando os Estados Unidos buscavam um ­veículo de transporte para suas tropas, mas não encontravam o produto ideal. Foi quando a Food Machinery Corp. desenvolveu, em parceria com a Kaiser Aluminum, um modelo que ficou marcado como um dos mais utilizados da história: o M113, feito com a liga 5083, seguro contra a água do mar e ataques químicos; resistente, porém leve.

De lá para cá, o mundo viu veículos de defesa ganharem cada vez mais a aplicação de alumínio na busca por solidez, leveza e segurança. Clássicos como o veículo de alta mobilidade Humvee (acrônimo para High Mobility Multipurpose Wheeled Vehicle), que foi desenvolvido com painéis de alumínio, rebitados e ligados, para garantir baixo peso e resistência para altas cargas. Com o alumínio fornecido pela Kaiser Aluminum, o modelo serviu a mais de 40 países com cerca de 200 mil unidades comercializadas. “As ligas utilizadas para estes veículos de defesa são altamente resistentes e quando combinadas com demais materiais tornam as soluções ideais para o setor militar”, afirma Doug Richman, da Aluminum Association.

Josée, da Constellium, reforça o argumento, lembrando que o metal tem potencial de sobra para atender à demanda do setor. “No mercado militar, muitos de nossos parceiros já demonstraram que em uma base de ‘quilo por quilo’, o uso de alumínio de nível militar pode, na verdade, proporcionar uma melhor propriedade de combinação do que o aço, então é melhor para preencher os requisitos de performance de veículos de defesa da próxima geração.”

PARCERIA

Por conhecer bem as vantagens da aplicação do alumínio, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos passou a investir ainda mais na indústria, buscando desenvolver melhores produtos. Recentemente, a Constellium foi contemplada com um contrato com o Centro de Desenvolvimento e Engenharia de Pesquisa Automotiva de Tanques do Exército Norte Americano (TARDEC), para dar suporte à plataforma de Protótipo de Veículo de Combate.

Para o desenvolvimento de um protótipo de defesa, a empresa holandesa irá fornecer sua liga de alta resistência Keikor® 2139 na forma de chapas de alumínio para aplicação estratégica do material nas laterais e parte de baixo do modelo. “Por muitos anos temos sido parceiros para a indústria de defesa, constantemente desenvolvendo novas soluções para aviões e veículos blindados e atualizando equipamentos em serviço”, conta Josée Roberts, gerente de comunicação e marketing do setor aeroespacial e de transporte da empresa.

A Alcoa também selou um contrato de cinco anos de duração com o TARDEC. Neste caso, serão investidos US$ 50 milhões para a pesquisa e desenvolvimento focados, principalmente, em soluções leves para veículos terrestres de combate e defesa. Há também a intenção de dar suporte para as iniciativas em tecnologia, além de fornecer soluções de engenharia para sistemas terrestres inteligentes.

“As soluções da Alcoa melhoraram a proteção enquanto reduzem o peso do veículo e o tempo de montagem. Estamos ansiosos para ajudar a desenvolver os veículos de combate da próxima geração”, afirmou Eric Roegner, presidente da Alcoa Defense, nos Estados Unidos, em nota oficial. A colaboração da empresa com o setor militar acontece já há, pelo menos, um século: em 1917, o exército norte-americano utilizou cerca de 90% da produção da companhia para suprir suas necessidades.

Em 2013, a empresa anunciou uma iniciativa junto com o Laboratório de Pesquisa do Exército Norte-Americano para fabricar o maior tanque de alumínio para veículos de combate do mundo forjado a partir de uma peça. Esta ação aumentou a taxa de sobrevivência em combate, quando comparada ao desempenho de demais tanques.

LIGA

Grande parte do foco desses contratos está na busca por ligas mais resistentes, que garantem aos veículos de defesa maior estabilidade e agilidade. “Através do desenvolvimento dessas ligas é possível chegar a novos patamares de resistência e segurança. Por isso o constante investimento nas pesquisas, que podem aprimorar ainda mais o desempenho do alumínio e, consequentemente, dos seus veículos”, afirma Doug Richman, presidente do comitê técnico do grupo de transporte de alumínio da Aluminum Association.

Chapas de alumínio com ligas de série 5xxx, 6xxx e 7xxx são extensivamente aplicadas no setor militar, além de perfis extrudados da liga 6061-T6 e 6063-T5, utilizados no corpo de ônibus, reboques de carga, tanques de transporte de líquidos e demais utilitários.

Além de veículos anfíbios, como os barcos de combate, que têm rodas e podem se lançar ao mar, carregar outros veículos e até mesmo formar uma espécie de ponte — e levam a aplicação de diversas ligas de alumínio no casco, deck ou até mesmo na estrutura. Josée, da Constellium, conta que o desenvolvimento da Keikor® 2139 não foi feito especificamente para o projeto com a TARDEC, mas sim pensando na aplicação em um veículo de combate exposto a situações de risco. “Fizemos um teste com uma explosão em escala real para ver seu nível de proteção em comparação a ligas convencionais. É a melhor solução disponível. Altamente resistente e acima da média em termos de deflexão permanente.”

Recentemente, a Aleris levou para os EUA a liga 7017, cujo equilíbrio de elementos proporciona resistência à fissura por tensão e corrosão. “Ela tem combinação de propriedades que a tornam ideal para a maior parte das soluções blindadas. Isso inclui rigidez, soldabilidade e resistência à corrosão. Essa liga é utilizada na Europa e na Ásia, em veículos de combate para conseguir proteção balística superior”, afirma Lawrence Kramer, engenheiro global de defesa da Aleris.

COMPROMISSO

“Com o avanço da tecnologia e a constante necessidade de suprir a Defesa, creio que o mercado de aplicação militar para alumínio será sempre próspero. Estamos falando apenas de veículos terrestres. Então, se formos levar em consideração o verdadeiro volume de material em alumínio no mercado militar, é uma gama muito grande”, avalia Doug Richman, da Aluminum Association.

Pelo menos por enquanto, Alcoa e Constellium poderão continuar trabalhando, paralelamente às suas atividades, nos projetos em parceria com o exército norte-americano. Atualmente, a empresa atende BAE Land & Armaments L.P and Oshkosh in North America, dois dos grandes produtores de veículos de defesa do país. Jason Saragian, da Aleris, afirma que, enquanto houver o estímulo à inovação, não faltarão investimentos nesse mercado. “Estamos falando do desenvolvimento de soluções para agilidade, leveza e, acima de tudo, segurança. É um trabalho nobre e feito com muita responsabilidade”, afirma.

MODERNIZAÇÃO NACIONAL

No segundo semestre de 2016, o exército brasileiro recebeu os primeiros kits para modernizar os blindados de tropas M113B para a configuração M113BR, versão basicamente igual ao original, mas com a motivação para o maior uso de componentes nacionais. Durante alguns anos foram acontecendo pequenas modernizações no modelo M113, como nos motores e transmissão, mas apenas agora o processo poderá ser feito por completo. O M113 e suas versões modernizadas recebem blindagem de aluminio em toda sua estrutura.

O processo é parte do Projeto Estratégico do Exército de Obtenção de Capacidade Operacional Plena (PEE-OCOP), estabelecido no final de 2014 via Foreign Military Sales (FMS). A BAE Systems, responsável pela produção dos veículos, recebeu o contrato de US$ 54,6 milhões do Departamento de Defesa dos EUA, em julho do ano passado, para que o trabalho pudesse ser iniciado. Os equipamentos foram enviados pela BAE Systems ao Parque Regional de Manutenção/5, em Curitiba, e serão modernizados cerca de 236 blindados de transporte de tropas, com o término da operação previsto para 2018.

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