Agora é que são elas...


Mulheres ocupam apenas 8% do quadro de funcionários da indústria do alumínio. Conheça algumas delas e a contribuição que trouxeram ao setor aliando conhecimento e um jeito bem feminino de gerir suas funções


Gaspar Nóbrega
Em pé (esq. para dir.): Kaísa Couto (Abal), Magda Reis (VM -CBA), Camilla Pini (Alpex) e Eliete Morais (Alcoa). Sentadas: à direita, Giselly Grillo Marques, (Novelis) e, no centro, Eunice Lima (Novelis). No chão, Mirella Fernandes (VM-CBA)

A história da incursão destas mulheres pelo mercado do alumínio narra um pouco da evolução da cultura e dos negócios brasileiros, da modernização do olhar empresarial e, assim, da consolidação da abertura do país para o mundo. É difícil achar aqueles que contem sobre o papel da mulher na história da indústria do alumínio antes da década de 1980. Elas simplesmente não estavam lá, com raríssimas exceções. De lá para cá, desbravaram essa terra nova, árida, feita de homens de canetas ou músculos. Segundo o Relatório de Sustentabilidade 2010 da Associação Brasileira do Alumínio (Abal), as mulheres representam 8% no quadro total de funcionários dessa indústria. Parece pouco e, perto do potencial, é. Ainda assim, traduz uma mudança social muito grande, em que novas perspectivas e outros são agregados, transformando a forma como a indústria se comporta e como os negócios se realizam.

Nesta reportagem, você conhece algumas das mulheres que narram conquistas de todo o setor por meio de sua atuação profissional e, ainda, deixam ver a contribuição que a participação feminina traz para o segmento, na liderança ou no chão de fábrica.

Algumas delas ocupam hoje o macérrimo 1% que corresponde à participação das mulheres em cargos de chefia na indústria do alumínio. Realidade que vem mudando por força dos tempos ou de iniciativas assertivas. A Alcoa, por exemplo, tem um programa mundial para incentivar a ascensão das mulheres a postos de liderança, o Alcoa Women’s Network, criado nos Estados Unidos, em 2001, por um grupo de executivas; e que, no Brasil, chegou em 2004. De lá para cá, aqui (impactado ou não pelo programa), o índice de mulheres em cargos de gestão aumentou 39% na empresa.

Um estudo norte-americano do Hudson Institute, “Workforce 2000: Work and Workers for the 21st. Century”, há algum tempo profetizava que as mulheres serão as líderes do novo milênio, ultrapassando os homens até em número em postos de trabalho. Não à toa.

A era do sistema fordista de produção, em que apenas velocidade, equipamentos e uma liderança diretiva norteavam a competitividade, está cada vez mais para trás. Na era do conhecimento, mesmo as commodities não perdem de vista a necessidade de se diferenciar. O que embasa esse modelo de gestão é o foco nas pessoas. Habilidades da mais moderna cartilha de gestão apontam para características associadas, de forma atávica, ao feminino: a capacidade de ouvir, a flexibilidade, o poder reflexivo, as estratégias consensuais. Por isso, não basta ser mulher para agregar e fazer a diferença nesse novo mundo dos negócios. Tem de ser feminina. Como elas.

divulgação/Alcoa
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Flexibilidade
Mal saiu da faculdade de engenharia da Universidade de São Paulo (USP), aos 22 anos, foi procurada por um headhunter para participar de processos seletivos. Acabou entrando na Alcan onde, ao longo de anos, veio a coordenar a exportação e gerir o mercado interno. Por lá, adquiriu uma visão global, fez cursos pelo mundo e desenvolveu o mercado de latas de alumínio na América Latina. Um dos marcos históricos que conquistou. Já na VM-CBA (Companhia Brasileira de Alumínio), em que chegou como gerente de exportação, veio outro: “Fui a primeira gerente mulher da história da CBA na área comercial”, conta Mirella Fernandes.

Mirella chegou em 2009 à VM-CBA, durante grande reformulação: o empresário Antônio Ermírio de Moraes se afastava de algumas áreas, entre elas, o alumínio – e havia também a crise mundial. “A exportação é que estava salvando os negócios. Renovei a área, e disse à equipe ‘meu estilo não é duro. Eu gerencio por união e preciso do conhecimento de vocês’”, lembra. De uma produção de 40 mil toneladas, chegou a exportar 35 mil, em um mês. Tudo usando a flexibilidade: “Equipe, vamos procurar mercados novos. O mundo é grande, não dá na Rússia, vende na Bielo-Rússia”, disse, despachada, a hoje gerente- geral da área comercial VM-CBA.

A executiva acredita que a mulher é mais flexível para lidar com problemas, especialmente quando há vários ao mesmo tempo. “Vida de mulher executiva é doida. Você pensa se a babá foi, se o cabelo está bom para a reunião, além do trabalho”, diz. O cúmulo do traço multitarefas veio na gestação. “Trabalhei dentro da sala de parto, com blackberry na mão”, diz sem reclamar: “Amo isso tudo”.

Lado mãe
Desde jovem, ela tinha um mix raro de qualidades. Uma voz bem meiga, grande habilidade para dialogar e “um coração que bate forte pela área de infraestrutura, tecnologia da informação e exatas”.

Depois de experiências integrando plataformas e linguagens em empresas de outros segmentos, Giselly Grillo Marques entrou para o mundo do alumínio, em 1996, na Alcoa, como analista de suporte sênior. De cara, um projeto de padronização global da infraestrutura, de US$9 milhões. O primeiro a dar certo em 14 anos. “Fui assumindo a gestão de toda a área de infraestrutura, redes, telecomunicações e depois passei à implantação de ERP [enterprise resource planning]”, diz.

Para isso funcionar, procurou sempre engajar os colaboradores. “É pura negociação, olho no olho. Mas também tenho um toque de instinto materno: dou o ombro, quero entender onde está a dor do outro. Isso fez absoluta diferença nos resultados”.

Já na Novelis, desde 2010, ajudou a construir essa nova etapa da empresa integrada. Já reestruturou a equipe, atualizou o parque tecnológico e agora trabalha na padronização de processos. “Tenho foco em resultados, mas penso muito nas pessoas e estimulo que elas reflitam. Isso muda todo o processo”.

Consenso
Focada no marketing no segmento B2B, ela já tinha passado por outras indústrias, profissionalizado a comunicação em uma consultoria de desenvolvimento organizacional, criado estratégia pioneira de comunicação em empresa de refeições coletivas. Quando chegou ao mundo do alumínio, na antiga Alcan, encontrou um grande desafio.

 

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