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| No Brasil, já há 175 tipos de medicamentos fracionados com produção autorizada |
Foi no início deste ano que o laboratório paranaense Prati-Donaduzzi, cujo nicho principal (75% do portfólio) são os medicamentos genéricos, começou a colocar no mercado alguns dos 12 fracionados da empresa hoje já oferecidos a seis mil farmácias brasileiras. Para isso, investiu R$ 10 milhões em ferramentais importados que permitissem fazer as adequações nas embalagens primárias e no emblistamento dos medicamentos fracionados que, entre outras coisas, precisam carregar informações de lote, fábrica e validade por unidade. A aposta do laboratório nos fracionados é tamanha que, em 2012, já espera começar a produzir doses unitárias de pomadas e cremes em bisnagas.
O curioso é que esse movimento assertivo acontece quando boa parte do mercado ainda olha desconfiado para os fracionados, cuja regulamentação veio já há seis anos. A reportagem tentou contato com outros sete importantes laboratórios que atuam no Brasil e, quando o assunto são os fracionados, todos se acanham, ninguém quer falar no assunto.
Tudo porque o fracionamento ainda é tema delicado, já que é uma daquelas regulamentações que parecem não ter pegado, apesar de ser de interesse do país. Estima-se que o brasileiro jogue no lixo cerca de R$ 9 bilhões/ano em medicamentos não usados, por terem sido comprados em quantidade padronizada, maior do que a recomendação médica. Visto como alternativa para garantir a economia na compra e redução desse desperdício, o decreto federal 5775, de 2006, regulamenta o fracionamento de medicamentos em farmácias, mas não obriga laboratórios a produzi-los, o que faz com que não seja muito fácil encontrar o produto à venda.
Nos últimos cinco anos, indústria do alumínio investiu em tecnologias que garantem que não haja microfuros na folha. Hoje, setor se diz preparado para alta da demanda
De acordo com a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), há hoje 20 laboratórios autorizados a produzir 175 tipos de medicamentos fracionados. O processo, porém, exige investimentos dos laboratórios e preparo das farmácias. Para trabalhar esse aspecto, o Prati- Donaduzzi investiu em um longo diálogo com 15 farmácias locais, para entender temores e resistências e ajudá-los a interpretar a Resolução da Diretoria Colegiada 80 (Anvisa, 2006), versão atual das normas que regulamentam a produção e comercialização dos fracionados.
“Treinamos 300 representantes comerciais para saber lidar com as farmácias, que antes estavam confusas com a primeira versão da norma. Hoje, a exigência é mais ponderada: as farmácias devem ter uma prateleira própria para esses medicamentos e ter um local para dispensação, que não precisa ser uma sala. Nós mesmos oferecemos, em comodato, um balcão que desenvolvemos para essa finalidade”, explica Gustavo Prati, gerente de marketing do laboratório, empresa que hoje tem faturamento de R$ 400 milhões e produção de oito bilhões de doses anuais.
Folha de alumínio
Se, em seis anos de regulamentação, a indústria farmacêutica em geral não amadureceu muito a questão dos fracionados, o mesmo não se pode dizer da indústria do alumínio. As fornecedoras de folhas de alumínio desenvolveram, exatamente nesse período, tecnologias que deram um salto de qualidade nas folhas que servem às embalagens de medicamentos.
A Novelis, por exemplo, investiu R$ 8 milhões em equipamentos e processos de laminação que resultaram em melhor planicidade da folha e, somado a isso, trouxe ao Brasil tecnologia de fundição da placa de alumínio que, no faceamento, retira o óxido antes de laminar e, assim, evita a criação de microfuros na laminação. O investimento veio para atender o mercado de latas, com ganhos consequentes para o farmacêutico. “Cinco anos atrás, chegamos a interromper o fornecimento para a indústria de embalagens de medicamentos porque precisávamos fazer ajustes no produto. Hoje, fornecemos de 150 a 200 toneladas por mês para blisters e strips e estamos prontos para aumentar isso”, conta Nicanor Rocha, gerente comercial para folhas da Novelis.
Segundo Rocha, neste inverno as encomendas mensais do mercado de medicamentos tiveram alta de 60%, média que a estação costumaria trazer. “Se a indústria decidir apostar nos fracionados e precisar de mais fornecimento no verão do que o habitual, hoje estamos prontos para manter esse ritmo”, conta.
A mesma sinalização traz a VM-CBA (Companhia Brasileira de Alumínio). “Caso os fracionados tragam aumento na demanda por folhas de alumínio, nós estamos preparados para atender”, diz Carlos Fonseca, gerente comercial da VM-CBA.
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| Não é todo medicamento com picote que é fracionado: embalagem recebe identificação |
Segundo Gustavo Prati, diferentes folhas de alumínio que o mercado oferece atendem às necessidades das embalagens dos fracionados. “Hoje, trabalhamos com dois fornecedores, mas a perspectiva é subir para quatro, também por conta dos fracionados”, conta.
De acordo com a Anvisa, além das informações por unidade, as embalagens devem seguir as mesmas orientações técnicas para proteger os medicamentos. “A embalagem tem de impedir a troca de gases com o ambiente externo e a interferência da luz e da umidade, principais fatores causadores da decomposição”, explica Jair Calixto, gerente de boas práticas e auditorias farmacêuticas do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos no Estado de São Paulo (Sindusfarma).
Para José Ezio Bozzetti Junior, gerente de desenvolvimento de embalagens da Centralpack Embalagens, que integra o Grupo Prati- Donaduzzi e produz as artes, matrizes e impressões dos blisters, as mudanças na criação do produto se dão não apenas no design e na impressão, mas também na tecnologia de picote. “A observação da pressão do picote durante o processo é uma constante, já que deve facilitar a separação quando os blisters estiverem nas fármacias”, diz.
Perspectivas
Em 2010, o consumo de folhas de alumínio em geral teve um salto de 16,4% em relação ao ano anterior. Este ano, segue aquecido, com crescimento estimado de sete mil toneladas, chegando a 95 mil toneladas aplicadas na produção. Os fracionados podem elevar ainda mais esses números.
No que depender da Prati-Donaduzzi, isso deve acontecer em breve. “Queremos chegar a cerca de 100 produtos em versão fracionada, além de investir na linha de envase de pomadas, pós e cremes em outras embalagens, como bisnagas”, diz Prati, que é otimista quanto à aceitação do público: “Não tenho dúvidas de que os fracionados vão revolucionar a forma de usar medicamentos, a população tem recebido muito bem. É uma questão de mudança de cultura e nós estamos nos antecipando”.