A popularização do chique


Antes nicho de luxo, rodas de liga agora crescem na saída de fábrica dos carros de médio padrão. Mercado agitado motiva nova portaria do Inmetro


Colaborou Thais Martins

Estimativa de empresa fornecedora de alumínio aponta que, em cinco anos, uso das rodas de liga leve pelas montadoras deverá dobrar de volume

 

As rodas de liga leve chegaram ao Brasil há quase 40 anos, mas, até pouco tempo, o setor era bem acanhado, já que se restringia ao nicho de carros de luxo. Recentemente, o começo da virada. "Só nos últimos dez anos, o número de carros que já saem equipados de fábrica com esse acessório subiu dez pontos percentuais", diz Ivens Pantaleão, diretor superintendente da Divisão de Rodas da Mangels, empresa que ocupa o topo da lista de market share na fabricação de rodas de liga originais. "Hoje em torno de 30% do total de veículos produzidos já saem com o acessório", avalia Sérgio Benedetto, gerente comercial da Italspeed, uma das fabricantes de rodas de alumínio (hoje sinônimo de liga leve) originais.

 

divulgação/mangels
Roda fabricada pela Mangels passa por etapa de acabamento

Não há números oficiais e abertos no setor: Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) e Sindipeças não os detêm. O cálculo da produção nacional e do share desse produto é feito somando as informações das fabricantes. Tendo em vista que o mercado brasileiro produziu 3,6 milhões de automóveis em 2010, segundo a Anfavea, o percentual apontado indicaria a fabricação de cerca de 4,3 milhões de unidades no último ano. Os dados revelam, assim, que o brasileiro está descobrindo a roda de liga leve à medida que cresce seu poder econômico. "Cada vez mais o carro sai de fábrica com as rodas de liga. Inclusive carros médios, menos luxuosos", diz Sérgio Benedetto.

 

Mangels e Italspeed são duas das quatro fábricas de rodas originais, ao lado de Alujet e Borlem. Fora essas, o mercado traz fabricantes de aftermarket, com modelos e padrões alternativos às rodas originais, também chamado de mercado de reposição. Com a chegada de montadoras asiáticas (de olho no quarto maior mercado de automóveis do mundo), que trazem consigo peças importadas, e também mirando a padronização do mercado interno, o país ganhou novo instrumento que ajuda a garantir especificações mínimas de certificação de qualidade.

 

A despeito de a Associação Brasileira de Normas Técnicas já possuir normas nesse sentido, como a NBR 6752 (rodas de liga de alumínio para automóveis, comerciais leves e utilitários esportivos), o Brasil conta agora a portaria 445, do Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro), que entra em vigor neste novembro. A regulamentação vem para aplicar os mesmos requisitos de conformidade aos diferentes produtos nacionais (originais ou aftermarket) e aos importados, da fabricação à comercialização.

 

"O aftermarket é muito diverso e não tem o mesmo rigor que os produtos das montadoras. Ao lado disso, também os importados devem passar por avaliações de conformidade, observando aspectos como segurança, meio ambiente, saúde, relações de mercado e balança comercial. A norma do Inmetro vem balizar isso, o que pode se refletir, inclusive, sobre o preço do importado ao ser adequado às normas", diz Mário Guitti, superintendente do Instituto de Qualidade Automotiva (IQA), uma das instituições acreditadas pelo Inmetro para a análise do produto.

 

Mercado da beleza
Uma das vantagens da roda de alumínio é o peso reduzido. Na comparação com o aço, pode ter de 15% a até 50% menos de peso conforme o modelo. "Essa redução corresponde a até cinco quilos a menos no veículo todo", explica Eloy Meffe Jr., supervisor de dinâmica veicular da Ford. O peso de uma roda de liga leve pode variar de 6,5 kg a 15 kg, dependendo do modelo e do aro.

 

O impacto disso se mede em termos ambientais. Estudos do setor apontam que a economia de combustível chega a representar 2,5% com o uso das rodas de alumínio. "Com peso reduzido, melhora-se o consumo de combustível e, consequentemente, reduzse as emissões de gases poluentes", complementa Meffe Jr.

 

O peso, os fabricantes acreditam, deve ser um argumento de venda para o futuro, à luz do acontece em países europeus: "A maior presença do alumínio no carro permite que a reciclagem da sucata do veículo seja bem mais fácil. Já estudamos esse mercado e percebemos que estamos longe disso, mas no futuro deve ser um argumento forte", diz Benedetto.

 

Em vez da sustentabilidade, as motivações para as vendas crescentes seriam outras: "Esse mercado cresce porque a roda de liga ganhou credibilidade. O brasileiro se conscientizou de que o produto tem qualidade, além de todo o apelo estético", avalia o gerente da Italspeed.

 

Segundo fabricante de rodas de liga leve, a saída de fábrica com o acessório cresceu dez pontos percentuais, em dez anos. Produto já estaria em 30% dos carros novos

 

Para o consumidor em geral, o apelo estético, esse sim, é o principal chamariz do produto, a despeito das outras vantagens que traz. Isso explica o fato de que o mercado tenha tantos modelos. Só a Mangels tem mais de 140 opções. A Italspeed, cerca de 200.

 

"A roda é projetada pensando no design, que deve estar adequado ao projeto do carro, à capacidade de carga que deve suportar, ao estilo do carro e observando a quantidade de insumo usado. O peso também conta, mas é conquência, não ponto de partida", diz José Renato Martins, engenheiro de processos da Mangels.

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