Bancos de praças, cabines telefônicas, totens de luz, relógios eletrônicos, abrigos de ônibus, toda essa mobília não tem apenas função de proteger, oferecer conforto, informar. Também traz a percepção de identidade de um lugar e, ainda, avisa moradores e visitantes sobre como o poder público se importa com as pessoas e com o meio ambiente.
De tempos em tempos, essa mobília precisa passar por reforma, como acontece com a decoração de qualquer casa. O sistema que rege o mobiliário urbano brasileiro, por meio de concessões de longa vigência, no entanto, faz com que a mobília seja renovada com intervalos de 10, 15, até 25 anos.
Esses longos períodos tornaram o mobiliário de boa parte das cidades brasileiras envelhecidos, carentes de modernização. É nesse momento crítico, vivido hoje, que emerge o potencial de renovação da mobília no país, o que agita as empresas do setor - inclusive aquelas que produzem mobílias em alumínio.
Para especialistas, os planos diretores das cidades brasileiras ainda não despertaram para a importância da regulamentação com vistas à inovação, que seria embrionária. "A renovação do mobiliário urbano no Brasil enfrenta o mesmo problema de outras políticas públicas do urbanismo: é ainda incipiente na nossa cultura e não tem continuidade de governo para governo", diz Roberto Righi, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP).
Em geral, as cidades não acompanharam a evolução tecnológica. De um lado, o mercado criou relógios com softwares mais sofisticados, totens para iluminação programada, abrigos modernosos. Por outro, o que se vê nas ruas ainda são peças das décadas de 1980, 1990. O que a tecnologia demanda meses para superar, o poder público leva décadas para trocar.
Nichos
Nas cidades em que a mobília tem mais peso na agenda pública, são três os principais fatores norteadores das reformas: redução de custos com manutenção, aposta no turismo e suporte à publicidade.
Porto Alegre é uma das que hoje se propõem a discutir seus rumos urbanísticos. A motivação: impressionar os turistas na Copa de 2014. "O mobiliário urbano está entre as questões que serão analisadas para preparar a cidade para o evento. Estamos apenas no começo", diz a arquiteta Ada Raquel Schwartz, da Secretaria do Planejamento de Porto Alegre, que está à frente da comissão que vai estudar as reformas.
Copa do Mundo, aliás, deixou o mercado agitado. Assim que o Brasil foi escolhido como sede, as empresas bateram nas portas das prefeituras para saber os reflexos no mobiliário. "Isso gerou uma expectativa muito grande, mas infelizmente o poder público está focado só nos estádios. A cultura do mobiliário urbano é muito nova. Você vai conversar com o poder público e tem prefeitura que não sabe o que é isso", diz Gabriel Roza, arquiteto da Murban, empresa de desenvolvimento de projetos de mobiliário urbano, que atua em todo o Brasil, em parceria com a Kraten.
Quem salta na frente hoje em termos de mobiliário urbano são as cidades pequenas, interessadas em se consolidar como pólo turístico. Até porque, para receber apoio do Ministério do Turismo, as empresas precisam apresentar suas propostas urbanísticas.
As peças, que levam alumínio, trazem design e tecnologia mais moderna. "O diretório tem software que controla a iluminação ao longo do dia, seja por fotocélula, quando a luz cai, ou por horário. Por isso, dispensa controle manual", explica Roza, da Murban, responsável pelo desenvolvimento das mobílias.
Vivendo do básico
Enquanto as inovações sofisticadas em mobílias amadurecem gradualmente no Brasil, as empresas do setor atuam ainda instalando peças estruturais básicas, como placas de rua, paradas e abrigos de ônibus. O fôlego para viver nesse mercado fica concentrado na instalação dessas peças e modelos tradicionais, que trazem consigo a função, igualmente consolidada, de servir à publicidade.
Na cidade de São Paulo, desde que a lei Cidade Limpa passou a vigorar, em 2007, visando minimizar a poluição visual trazida pela mídia externa, a capital paulista teve 14 mil espaços publicitários subtraídos. A tolerância com os anúncios ficou restrita ao mobiliário urbano que, ainda hoje, pode trazer consigo propagandas de produtos e serviços.
O apelo comercial coloca o tema não apenas na agenda pública de cidades, como na mira das empresas. "Em todas as cidades em que atuamos, os principais anunciantes locais e nacionais planejam trabalhar conosco. Apresentamos resultados importantes tanto na construção de marca como na alteração positiva dos resultados em vendas desses anunciantes", diz Paloma Gonzalez, da Cemusa, empresa espanhola que há 11 anos atua em mídia exterior no Brasil.
Treze anos depois da última licitação que concedeu direito à exploração do mobiliário urbano na capital paulista, está hoje em tramitação um novo Projeto de Lei, número 47/2010, que repassa à iniciativa privada a manutenção e exploração comercial dos espaços já instalados, como também a confecção de novos relógios eletrônicos de rua, além de abrigos e paradas de ônibus. Durante os 20 anos de vigência do contrato, a prefeitura de São Paulo deverá receber cerca de R$ 2 bilhões.
O projeto de lei, que saiu de votação e voltou para a mesa de discussões na Câmara dos Vereadores da cidade, fala na confecção e instalação de até 16 mil abrigos e pelo menos 14 mil paradas de ônibus, além de até mil relógios, todos no mesmo desenho dos atuais. Potencial mercado para o alumínio. "Para a cidade, é importante trabalhar com materiais de fácil manutenção e resistentes às intempéries. Há espaço para o alumínio. Tudo vai depender de como as empresas participantes vão criar e apresentar seus projetos", diz Regina Monteiro, diretora de Meio Ambiente e Paisagem Urbana da Empresa Municipal de Urbanização (Emurb).
No caso dos abrigos, os custos por unidade variam entre R$ 3 mil e R$ 10 mil, dependendo dos modelos e materiais empregados. Em alumínio, há melhor custo-benefício. "É mais caro, mas a manutenção é nula. Se feito em aço, mesmo que tenha tratamento, com tempo vai sofrer corrosão. O alumínio dispensa até pintura", diz Roza, da Murban.
Os modelos de relógios presentes hoje
Tendências
À luz do que ocorre em outros países, o mobiliário urbano brasileiro tende, ainda que a passos lentos, a incorporar cada vez mais tecnologia e preocupação com sustentabilidade. "Precisamos ter na cidade um mobiliário urbano que interaja com o cidadão, com câmeras 360º conectadas a órgãos públicos, como a Defesa Civil e a Polícia", analisa Regina, diretora da Emurb.
No quesito sustentabilidade, ganha espaço o alumínio, uma vez que o material volta à cadeia produtiva, com reciclagem integral. Em outros países, esse mercado se consolidou. A canadense Urbana, por exemplo, é especializada em bancos "verdes" para praças, parques e ruas. A australiana Botton & Gardiner também oferece bancos em alumínio, com design moderno.
Por aqui, essa evolução está a caminho, como faz crer a Baíta Design, empresa carioca de design de mobília residencial e objetos de decoração, que também desenvolve mobiliário urbano conceitual. O estúdio já projetou diversas peças que levam o metal na composição, todas com a preocupação com a sustentabilidade.
O Station, por exemplo, é uma estrutura desenhada em alumínio para exercer a função de ponto de ônibus, mas que tem uma turbina instalada na parte superior para coletar vento e transformá-lo
Outra proposta é o Cinco, um misto de quiosque e ponto de encontro, que capta energia solar e eólica. Com o que armazena, alimenta lâmpadas LEDs do teto e também permite que os usuários recarreguem seus notebooks, GPS, câmeras, celulares e aparelhos de MP3. Junto dos componentes eletrônicos, nesses projetos, estão estruturas projetadas com alumínio.
A designer Helena Bueno, autora dos projetos, acredita que seja "o momento ideal para se falar de alumínio aplicado ao mobiliário urbano, especialmente aliado à captação de recursos energéticos renováveis".
A despeito de qualquer modismo estético, o fato é que, no século 21, as mudanças no mobiliário urbano precisarão respeitar as transformações da sociedade e a velocidade com que isso ocorre. De um lado, desponta uma promessa de mercado para o setor de mobiliário urbano. De outro, muita lição de casa para as cidades.