O diretor de crescimento e estratégia de mercado da Alcoa, Otávio Carvalheira, voltou seu olhar para o outro lado do mundo em busca de oportunidades. Morou três anos em Xangai, analisou mercados, implantou fábricas, detectou talentos locais e formou equipes. Aprendeu a se comunicar em mandarim e a entender o verdadeiro espírito chinês, pelo qual os executivos seguram o cartão de visita com as duas mãos e o entregam olhando nos olhos do interlocutor. Sinal de respeito. "Nossa adaptação foi tranqüila. Além do suporte incrível dado pela Alcoa [onde Carvalheira trabalha há 20 anos], o chinês é muito hospitaleiro. Já conhecia alguns chineses, com quem havia trabalhado, e estrangeiros morando em Xangai. E nem por estarmos tão longe de casa, minha esposa e eu deixamos de comer feijoada, ouvir jazz, ter uma vida social. A cidade oferece tudo o que há em qualquer grande cidade do mundo. Com a vantagem de, em apenas três ou quatro horas de trem, nos maravilhar, em plena cultura milenar." AL - O que os estrangeiros precisam saber sobre o país? Nos três anos que vivi na China, percebi (e eu gostaria de ter sabido antes de chegar lá) que existem três fatores fundamentais para entender e, a partir daí, facilitar a execução das atividades, a interação com as pessoas e, obviamente, a obtenção de resultados. O primeiro refere-se aos aspectos históricos e culturais. É impossível entender a China de hoje ou projetar a China do futuro sem entender a história de mais de 3 mil anos desse povo. É fascinante, do ponto de vista pessoal e do enriquecimento cultural para qualquer ocidental, que vive o mundo ocidental cristão. Temos de nos despojar do nosso pensamento ocidental para, então, entender aquele país. O segundo é ver que não existe uma única China e aprender a entender a diversidade. Trata-se de um país com 1 bilhão e 300 milhões de habitantes, com território mais ou menos do tamanho do Brasil, contrastes e realidades totalmente distintas. Muitas delas, com controle rigoroso por parte do Estado: de migração interna, propriedade da terra, que levam a uma diferenciação muito grande entre as regiões. Um Estado muito forte e muito presente em todas as diversidades. Então, falar da China de Xangai, de Pequim é diferente de falar da China de Quin Huang Dao, por exemplo, que não é ocidentalizada ou não tão exposta ao mundo internacional. O terceiro fator reside em entender o potencial do país. E, para isso, é preciso acompanhar estatística, números e o comportamento de consumo dentro da China.
AL - Em que segmentos a Alcoa atua na China? A Alcoa já opera na China na área de laminados desde 1995, e eu fui ser responsável pelas operações de folhas de alumínio. Formamos, no final de 2005, uma joint-venture com uma empresa local, um grupo muito forte na China, e inauguramos nossa segunda fábrica de folhas (de alumínio). No início de 2006, formamos mais uma nova joint-venture para atender ao mercado automobilístico com material brasado. Atualmente, a Alcoa opera com três fábricas de laminados e uma operação de sistemas eletroeletrônicos para automóveis. Duas delas, uma de laminados e uma de eletroeletrônicos, ficam em Xangai; uma de laminados, próximo a Xangai, e uma base de projetos de expansão da Alcoa em laminados, a 300 km de Pequim. Além dessas, estamos iniciando uma operação na divisão de fastener systems (sistemas de união, como porcas e parafusos especiais) construindo uma fábrica também na região de Xangai. Isso faz da Alcoa o maior parceiro da China na área de alumínio, com a chegada, desde 95 e agora, nos últimos três anos, com a forte expansão.
AL - Em quais segmentos de consumo o alumínio é mais presente? Na construção civil, que se destaca proporcionalmente com o Brasil. Já o de embalagens, que aqui é o mais forte, lá vem se desenvolvendo. Este é um foco de investimento da Alcoa, tanto que estamos acabando de construir uma fábrica de chapas que servirá ao mercado de latas, que é muito grande.
AL - Quais grupos brasileiros têm destaque na China? A Vale tem uma presença muito forte por ser aquele o seu principal mercado, de minério de ferro, com escritório principal em Xangai. A China é, hoje, a maior produtora de aço do mundo, assim como é a maior produtora de alumínio também. Além da Vale, a Embraer tem uma joint-venture lá, com escritório em Pequim. Somado a esses grupos pioneiros, se vê um fluxo muito grande de empresas chegando - Votorantim, Gerdau... Algumas com escritórios de representação, outras já instalando fábricas. A China é um destino muito importante para qualquer nação do mundo.
AL - E os outros países? Segundo estatísticas oficiais, é difícil avaliar os países que mais investem, mas se observa uma presença muito forte dos países asiáticos. Em Xangai, o Japão investe bastante em eletroeletrônicos; também é marcante a atuação da Coréia do Sul, de Cingapura e Taiwan. Estados Unidos é um parceiro comercial fortíssimo e os países europeus também se destacam - Alemanha no setor automobilístico, com presença da BMW, Volkswagen e da Audi; e em químicos, tem a Bayer, a Basf. A França também está presente na China e o Brasil é um dos que estão começando.
AL - O que mudou na China desde o processo de abertura para o mundo? Nesses 20 anos, a China se abriu para atrair investimentos para todo e qualquer setor. Mas as regras mudaram. Há setores em que o Estado permite parcialmente a chegada de empresas; outros, em que há total restrição. É uma economia com controles que eventualmente mudam e é preciso estar sempre atualizado. A Alcoa mantém especialistas para entender as regras. Há um tratamento preferencial para setores estrategicamente interessantes para o país. São visíveis setores com busca intensa por investimentos em alta tecnologia. Por outro lado, se ilude quem vai para a China pensando nela somente como base para exportação. O grande atrativo para operar na China é o próprio mercado chinês. A principal meta da Alcoa é atender a esse mercado, que promete crescer muito.
AL - O que o senhor diria sobre a mão-de-obra chinesa? A questão da mão-de-obra não é um fator decisivo para se colocar uma operação na China. Até porque existem várias Chinas, com isso, variações. A nova lei trabalhista, aprovada em 2008, também muda e traz custos adicionais. Para algumas empresas, que utilizam mão-de-obra intensiva, tornou-se mais oneroso operar na China do que em alguns países do sudeste asiático. Este início de ano já foi percebida uma migração de algumas empresas da China para esses países. Com relação à capacitação, há excelentes universidades em Xangai, Pequim e em outras cidades. Tive oportunidade de ver durante a apresentação da Alcoa para fazer recrutamento. O sistema educacional chinês é muito diferente do nosso, mas lá eles investem em capacitação, em novas tecnologias. Apesar disso, ainda é um desafio a ser vencido pelo país - existem mais de 600 milhões de pessoas no campo. Mas é exatamente aí que reside a nossa visão positiva de oportunidade de crescimento na China. Há uma tendência clara de urbanização. É uma megatendência que vem já há 11 anos e é o que fomenta o crescimento, uma vez que as pessoas têm acesso aos bens duráveis e bens de consumo que levam o nosso produto. Na medida em que essas pessoas passam a ter acesso a esse nível de consumo, ocorrerá o aumento da nossa demanda e é isso que a gente prevê para os próximos anos. Queremos estar juntos nesse momento de crescimento.
AL - Qual é a previsão de crescimento para o alumínio? O crescimento que prevemos para os próximos 10 anos do alumínio terá 50% concentrados na Ásia, e a China conta com 80% do total desse crescimento. É uma conclusão muito marcante. E a China é a maior produtora, quase 14, 5 milhões de toneladas por ano - isso significa quase 30% da capacidade mundial. Mas, apesar da produção alta, não é um exportador significativo. Exporta alguns produtos, mas importa outros, como minério.
AL - Houve algum avanço na questão ambiental chinesa? Do ponto de vista de controle ambiental, é clara uma tendência de melhoria sistêmica do controle ambiental que a China tem que ter para manter tantas operações. O país está se posicionando de forma muito responsável e vem colocando o tema ambiental num foco bem mais evidente do que no passado. É um fator importante e condição fundamental para podermos atuar naquele mercado. A Alcoa, como sempre, segue o padrão de controle rigoroso e continua investindo em melhorias nos sistemas de controle ambiental e desenvolvimento sustentável.
AL - Como é o relacionamento da Alcoa com a comunidade local? Fascinante. A forma de interação é diferente, pois a cultura é muito diferente. Mas conseguimos superar barreiras importantes e, atualmente, a Alcoa dá suporte a uma escola rural. Em Xangai, tem uma parceria, a entidade "Roots & Shoots", fundada pela Dra. Jane Godall, onde damos suporte em educação ambiental. Os funcionários organizam campanhas de doação de sangue e ajuda nos momentos difíceis, como terremotos. Nosso papel de empresa cidadã está bem sedimentado lá.
AL - Quantos funcionários a Alcoa tem na China? Quantos brasileiros? Ao todo, são mais de 2.000 funcionários e, atualmente, apenas um brasileiro. Também na liderança, a grande maioria é chinesa e isso foi uma missão: preservar a identidade cultural. O desafio de localizar e desenvolver talentos foi uma responsabilidade que me foi passada e uma experiência que me enriqueceu muito. Conseguimos formar ambiente de trabalho com equipes jovens. Foi gratificante ver essas pessoas crescendo.
AL - A invasão de produtos chineses preocupa os países em desenvolvimento. O que dizer ao empresário brasileiro sobre essa questão? Não vejo outro caminho que não a busca da eficiência. Prevendo para as próximas gerações, a escala de mercado e de produção na China é e vai continuar sendo inevitavelmente maior que no Brasil. Mas existem aspectos específicos em que o Brasil tem condição de se destacar. A necessidade da China em desenvolver a área de serviços é grande. Então, tudo o que pudermos fazer para agregar serviços ao nosso produto, tecnologias, melhorias constantes de qualidade e eficiência, vem ao encontro dessa manutenção e melhoria da competitividade das empresas brasileiras. Sou cético com relação a mecanismos de defesa puramente alfandegários, baseados na proteção ou reserva de mercado. Com as empresas brasileiras entrando na trajetória de se tornarem cada vez mais "players" globais, essa competição tem que se dar em termos de eficiência, qualidade de produto, inovação. Na medida em que vamos para o mercado europeu, americano, competir com chineses, iniciamos um aprendizado. Esse é o recado.
AL - E sobre os manufaturados? Temos recursos naturais e condições que a China jamais terá (minérios, capacidade energética baseada em hidrelétricas). E são vantagens competitivas para usar a nosso favor. Na área de manufaturados, o segredo para competir é eficiência, qualidade, tecnologia. Retaliações de um lado geram retaliações do outro lado. Nós precisamos do mercado internacional. O Brasil precisa da China, a China precisa do Brasil. É uma relação comercial que vem crescendo a cada ano e a tendência é que cresça muito mais. Inovando, buscando alternativas para agregar valor. |