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Paulistano da Vila Prudente, bairro da zona leste da capital, Sérgio Tiaki Watanabe não precisa se esforçar para agradar. O sorriso fácil, a voz pausada e a presença de espírito conquistam ao primeiro contato.
Apesar dessa aparente calma, o presidente do Sindicato da Construção Civil de Grandes Estruturas no Estado de São Paulo (SindusCon-SP) demonstra muita firmeza de opinião e sinceridade quando o assunto é incentivo à construção. Ao contrário de outras lideranças, Tiaki defende que os benefícios sejam concentrados somente nas camadas de baixa renda. "Uma casa popular carrega hoje, mais ou menos, 30% de tributos", explica. "Nós achamos que oferecer a desoneração tributária diretamente para o comprador da casa própria é mais simples e eficiente." Em sua opinião, zerar o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) dos materiais de construção não se mostra a metodologia mais correta para o momento, pois atinge todos os perfis de consumo.
AL - O setor imobiliário foi um dos primeiros a sentir o impacto da crise financeira internacional por meio dos plantões de venda?
Isso realmente aconteceu. O comprador também se preserva numa crise dessa envergadura. Ele também quer saber se pode entrar num financiamento alto e por um período muito longo. Houve uma desaceleração forte no 4º trimestre de 2008 no mercado imobiliário e, consequentemente, o nível de vendas de unidades habitacionais retraiu em cerca de 50%. O setor imobiliário tem uma característica que é a seguinte: venda feita hoje quer dizer construção daqui a seis meses para frente. Portanto,a a venda de janeiro não influi na atividade construção propriamente dita. Apesar disso, conseguimos fechar o ano passado com um crescimento de 10%. O ritmo está sendo retomado, mas com velocidade menor do que no ano passado.
AL - Então, as expectativas para 2009 não são das mais positivas?
Os indicadores econômicos do Brasil estão se deteriorando muito rapidamente e a construção civil acompanha esse ritmo. Portanto, o setor irá se acomodar num parâmetro de crescimento bem abaixo do obtido ano passado. Daqui para a frente, essa curva de desempenho de mercado, do final de 2008 até dezembro de 2009, será decrescente. Mas, mesmo assim, as estimativas apontam que o PIB da construção será positivo e com certeza superior ao nacional. AL - Diante da demanda intensa, algumas matérias-primas contaram com aumento significativo. A redução no ritmo de crescimento já teve repercussão nos preços dos materiais de construção em geral?
O SindusCon-SP faz uma pesquisa mensal chamada Custo Unitário Básico (CUB). Além dos materiais, se acompanha também o valor da mão-de-obra. O último dado referente a janeiro mostra que os produtos sofreram um aumento de preço médio de 0,44%. É um dado que pode ainda mostrar que o nível de atividade da construção prossegue forte, tanto que os preços continuam subindo. Claro que alguns materiais também reduziram seus valores durante o ano, e outros contaram com aumento significativo - como as esquadrias metálicas, que subiram cerca de 20% nos últimos 12 meses. O pico da pressão inflacionária foi, acredito, em julho-agosto, pois o nível de atividade estava muito forte. Houve problemas até de desabastecimento de alguns itens como o cimento. Nesse momento, a demanda é decrescente. Espero que os preços se acomodem, preferivelmente baixando. AL - O governo apresentou um pacote de medidas para incentivar o setor. É suficiente para reverter o quadro?
Não, eu acho que a crise internacional é maior que o governo. As medidas têm sido satisfatórias. Mas é bom lembrar que eu estou falando somente da construção civil. No ano passado, o governo baixou algumas diretrizes que visaram principalmente proporcionar liquidez de mercado, como linha de crédito com recursos da poupança, linha para capital de giro com recursos do Fundo de Garantia e redução de juros na Caixa Econômica Federal (CEF) para as famílias de menor renda. Além disso, foram abertos financiamentos para funcionário público e para residentes no exterior; criou-se o Caixapar, não só para financiar, mas para participar do capital das construtoras. Enfim, o governo tomou medidas de emergência, que evitaram um mal maior: a eventual paralisação de obras ou falência de alguma empresa. Essas linhas de liquidez ajudaram o mercado a não ter problemas de continuidade nas obras. O programa de incentivo, que está sendo divulgado na imprensa há algumas semanas, prevê a construção de 1 milhão de casas até 2010 para famílias de baixa renda. Esse é um grande incentivo ao crescimento econômico na construção civil e no Brasil. Esse projeto tem uma característica muito interessante no nível social, porque é dirigido para famílias que recebem até cinco salários mínimos. Exatamente nessa faixa é que se concentra o maior déficit habitacional brasileiro. Portanto, o setor está ansioso e na expectativa de conhecer a estrutura do projeto para começar a operar.
AL - Há previsão ainda de zerar o IPI para materiais de construção... Esse projeto deve vir com alguma desoneração tributária. Para ter ideia, uma casa popular carrega mais ou menos 30% de imposto. A posição do setor da construção é diferente da defendida pela indústria de materiais de construção. Achamos que oferecer a desoneração tributária diretamente para o comprador da casa própria é mais simples e eficiente. Se você fizer uma medida para desonerar o IPI do cimento, o benefício atingirá tanto a casa popular como a média e a de alto padrão. Isso não quer dizer que, dentro da reforma tributária, o Congresso analise e avalie a redução do IPI ou do ICM. AL - Quais os principais obstáculos para a construção popular no país?
A maior dificuldade é o Brasil não contar com uma política para construção de habitações populares e de interesse social. É preciso formular uma política que dê perenidade ao projeto, pois não adianta o Lula vir e dizer "Quero 1 milhão de casas", mas ficar cinco anos sem construir nenhuma unidade. A construção não se faz de um dia para o outro. O processo mexe com questões de legalização de terra, parcelamento do solo, loteamento, aprovação do projeto em prefeituras e estados, registro da incorporação em cartório de imóveis e projetos executivos. Aí começa a construção. Então, é preciso aplainar todos esses itens e criar recursos para subsidiar as famílias de baixa renda.
AL - Como vê a presença de esquadrias de alumínio na construção civil?
A indústria do alumínio já conseguiu desenvolver esquadrias mais econômicas com perfis de dimensões menores e vidro colocado. Não há grandes dificuldades técnicas ou industriais. Portanto, a questão é de escala. O Brasil precisa de um sistema financeiro com menor interferência do governo, para incentivo à execução e à construção de conjuntos habitacionais maiores como forma de aumentar a escala. Você consegue agregar produtividade no seu processo, e aí, sim, há queda de preço. Enquanto continuarmos fazendo conjuntinhos de 100 unidades não haverá muita diferença. AL - Qual a importância da adoção do Programa Brasileiro de Produtividade e Qualidade Habitacional?
Vários programas foram lançados em relação à gestão e à qualidade nas obras. Hoje, também se discutem normas de desempenho. O SindusCon-SP começou a debater gestão de qualidade nos idos de 94-95 e ajudou a montar dois projetos de qualidade: um no CDHU e outro na CEF, que é o PBPQ-H. Então, conviveu intensamente com isso. A maioria das construtoras do Brasil é certificada pelo PBPQ-H. Estamos presentes levando soluções, estruturando projetos. São programas baseados na norma ISO, que orientam o empresário em direção à melhor forma para executar e construir uma obra e que ele possa ter qualidade ao seu final.
AL - Qual será o impacto real da Copa de 2014 na construção civil?
Vai demandar muita infraestrutura e construção ou mesmo adaptação dos estádios. O grande problema talvez nem esteja aí, porque o Brasil tem uma quantidade de estádios razoavelmente boa, que precisam de muita intervenção ainda. A questão é a mobilidade urbana. O governo precisa concluir agora o planejamento das obras necessárias para receber a Copa. Até 2013 todas essas intervenções urbanas, obras complementares e de infraestrutura de estádio, deverão estar prontas. Sem esse plano não se sabe quanto será investido, por isso existe tanta discrepância nas previsões de gastos. Certamente, não é um projeto de US$ 1 bilhão de dólares. Será bem maior que isso. |