Otimismo continua firme


edição 18
O presidente do Sindicato do SindusCon-SP, Sérgio Watanabe, acredita em crscimento da construção civil superior ao PIB nacional, em 2009
Por João André de Moraes

Paulistano da Vila Prudente, bairro da zona leste da capital, Sérgio Tiaki Watanabe não precisa se esforçar para agradar. O sorriso fácil, a voz pausada e a presença de espírito conquistam ao primeiro contato.

Apesar dessa aparente calma, o presidente do Sindicato da Construção Civil de Grandes Estruturas no Estado de São Paulo (SindusCon-SP) demonstra muita firmeza de opinião e sinceridade quando o assunto é incentivo à construção. Ao contrário de outras lideranças, Tiaki defende que os benefícios sejam concentrados somente nas camadas de baixa renda. "Uma casa popular carrega hoje, mais ou menos, 30% de tributos", explica. "Nós achamos que oferecer a desoneração tributária diretamente para o comprador da casa própria é mais simples e eficiente." Em sua opinião, zerar o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) dos materiais de construção não se mostra a metodologia mais correta para o momento, pois atinge todos os perfis de consumo.

AL - O setor imobiliário foi um dos primeiros a sentir o impacto da crise financeira internacional por meio dos plantões de venda?

Isso realmente aconteceu. O comprador também se preserva numa crise dessa envergadura. Ele também quer saber se pode entrar num financiamento alto e por um período muito longo. Houve uma desaceleração forte no 4º trimestre de 2008 no mercado imobiliário e, consequentemente, o nível de vendas de unidades habitacionais retraiu em cerca de 50%. O setor imobiliário tem uma característica que é a seguinte: venda feita hoje quer dizer construção daqui a seis meses para frente. Portanto,a a venda de janeiro não influi na atividade construção propriamente dita. Apesar disso, conseguimos fechar o ano passado com um crescimento de 10%. O ritmo está sendo retomado, mas com velocidade menor do que no ano passado.

AL - Então, as expectativas para 2009 não são das mais positivas?

Os indicadores econômicos do Brasil estão se deteriorando muito rapidamente e a construção civil acompanha esse ritmo. Portanto, o setor irá se acomodar num parâmetro de crescimento bem abaixo do obtido ano passado. Daqui para a frente, essa curva de desempenho de mercado, do final de 2008 até dezembro de 2009, será decrescente. Mas, mesmo assim, as estimativas apontam que o PIB da construção será positivo e com certeza superior ao nacional.

AL - Diante da demanda intensa, algumas matérias-primas contaram com aumento significativo. A redução no ritmo de crescimento já teve repercussão nos preços dos materiais de construção em geral?

O SindusCon-SP faz uma pesquisa mensal chamada Custo Unitário Básico (CUB). Além dos materiais, se acompanha também o valor da mão-de-obra. O último dado referente a janeiro mostra que os produtos sofreram um aumento de preço médio de 0,44%. É um dado que pode ainda mostrar que o nível de atividade da construção prossegue forte, tanto que os preços continuam subindo. Claro que alguns materiais também reduziram seus valores durante o ano, e outros contaram com aumento significativo - como as esquadrias metálicas, que subiram cerca de 20% nos últimos 12 meses. O pico da pressão inflacionária foi, acredito, em julho-agosto, pois o nível de atividade estava muito forte. Houve problemas até de desabastecimento de alguns itens como o cimento. Nesse momento, a demanda é decrescente. Espero que os preços se acomodem, preferivelmente baixando.

AL - O governo apresentou um pacote de medidas para incentivar o setor. É suficiente para reverter o quadro?

Não, eu acho que a crise internacional é maior que o governo. As medidas têm sido satisfatórias. Mas é bom lembrar que eu estou falando somente da construção civil. No ano passado, o governo baixou algumas diretrizes que visaram principalmente proporcionar liquidez de mercado, como linha de crédito com recursos da poupança, linha para capital de giro com recursos do Fundo de Garantia e redução de juros na Caixa Econômica Federal (CEF) para as famílias de menor renda. Além disso, foram abertos financiamentos para funcionário público e para residentes no exterior; criou-se o Caixapar, não só para financiar, mas para participar do capital das construtoras. Enfim, o governo tomou medidas de emergência, que evitaram um mal maior: a eventual paralisação de obras ou falência de alguma empresa. Essas linhas de liquidez ajudaram o mercado a não ter problemas de continuidade nas obras. O programa de incentivo, que está sendo divulgado na imprensa há algumas semanas, prevê a construção de 1 milhão de casas até 2010 para famílias de baixa renda. Esse é um grande incentivo ao crescimento econômico na construção civil e no Brasil. Esse projeto tem uma característica muito interessante no nível social, porque é dirigido para famílias que recebem até cinco salários mínimos. Exatamente nessa faixa é que se concentra o maior déficit habitacional brasileiro. Portanto, o setor está ansioso e na expectativa de conhecer a estrutura do projeto para começar a operar.

AL - Há previsão ainda de zerar o IPI para materiais de construção...
Esse projeto deve vir com alguma desoneração tributária. Para ter ideia, uma casa popular carrega mais ou menos 30% de imposto. A posição do setor da construção é diferente da defendida pela indústria de materiais de construção. Achamos que oferecer a desoneração tributária diretamente para o comprador da casa própria é mais simples e eficiente. Se você fizer uma medida para desonerar o IPI do cimento, o benefício atingirá tanto a casa popular como a média e a de alto padrão. Isso não quer dizer que, dentro da reforma tributária, o Congresso analise e avalie a redução do IPI ou do ICM.

AL - Quais os principais obstáculos para a construção popular no país?

A maior dificuldade é o Brasil não contar com uma política para construção de habitações populares e de interesse social. É preciso formular uma política que dê perenidade ao projeto, pois não adianta o Lula vir e dizer "Quero 1 milhão de casas", mas ficar cinco anos sem construir nenhuma unidade. A construção não se faz de um dia para o outro. O processo mexe com questões de legalização de terra, parcelamento do solo, loteamento, aprovação do projeto em prefeituras e estados, registro da incorporação em cartório de imóveis e projetos executivos. Aí começa a construção. Então, é preciso aplainar todos esses itens e criar recursos para subsidiar as famílias de baixa renda.

AL - Como vê a presença de esquadrias de alumínio na construção civil?

A indústria do alumínio  já conseguiu desenvolver esquadrias mais econômicas com perfis de dimensões menores e vidro colocado. Não há grandes dificuldades técnicas ou industriais. Portanto, a questão é de escala. O Brasil precisa de um sistema financeiro com menor interferência do governo, para incentivo à execução e à construção de conjuntos habitacionais maiores como forma de aumentar a escala. Você consegue agregar produtividade no seu processo, e aí, sim, há queda de preço. Enquanto continuarmos fazendo conjuntinhos de 100 unidades não haverá muita diferença.

AL - Qual a importância da adoção do Programa Brasileiro de Produtividade e Qualidade Habitacional?

Vários programas foram lançados em relação à gestão e à qualidade nas obras. Hoje, também se discutem normas de desempenho. O SindusCon-SP começou a debater gestão de qualidade nos idos de 94-95 e ajudou a montar dois projetos de qualidade: um no CDHU e outro na CEF, que é o PBPQ-H. Então, conviveu intensamente com isso. A maioria das construtoras do Brasil é certificada pelo PBPQ-H. Estamos presentes levando soluções, estruturando projetos. São programas baseados na norma ISO, que orientam o empresário em direção à melhor forma para executar e construir uma obra e que ele possa ter qualidade ao seu final.

AL - Qual será o impacto real da Copa de 2014 na construção civil?  

Vai demandar muita infraestrutura e construção ou mesmo adaptação dos estádios. O grande problema talvez nem esteja aí, porque o Brasil tem uma quantidade de estádios razoavelmente boa, que precisam de muita intervenção ainda. A questão é a mobilidade urbana.  O governo precisa concluir agora o planejamento das obras necessárias para receber a Copa. Até 2013 todas essas intervenções urbanas, obras complementares e de infraestrutura de estádio, deverão estar prontas. Sem esse plano não se sabe quanto será investido, por isso existe tanta discrepância nas previsões de gastos. Certamente, não é um projeto de US$ 1 bilhão de dólares. Será bem maior que isso.

 
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