A harmonia do alumínio


edição 19
Instrumentos musicais feitos com o metal trazem comodidade aos músicos e são mais duráveis
Por Nathalie Ursini
A cada dia, mais empresas, indústrias e pessoas buscam recursos sustentáveis e ecologicamente corretos na realização de seus projetos e tarefas. Uma tendência mundial que não deixa de fora o meio musical. E é na musicalidade brasileira, em especial nas escolas de samba e estilos que valorizam a percussão, que o alumínio encontra espaço considerável. Este mercado cresce gradativamente e os apaixonados por música podem contar com recursos mais leves, bonitos, econômicos e - conta muito - ambientalmente responsáveis. O alumínio, por exemplo, é um material que, ao passar pelo processo de reciclagem, não perde suas características físicas, e por isso pode ser reciclado continuamente. Sem falar que cumpre com competência o papel da madeira, contribuindo, assim, para preservá-la na natureza.

De acordo com Ricardo de Araújo, da loja Mônaco Music Store, em São Paulo, "se compararmos um instrumento de alumínio ao mesmo fabricado com material diferente, perceberemos que além de ser mais leve e (em alguns casos) mais barato, ele não descasca e nem enferruja". Dos instrumentos feitos com o metal, a maioria é de percussão e muito utilizada nas escolas de samba. A Contemporânea, fábrica de instrumentos musicais e líder de mercado, produz cerca de 7.000 instrumentos por mês. "Do total, 1.500 são de alumínio e, mensalmente, vendemos 1.300 peças. Encaminhamos as 200 restantes para nosso estoque ou separamos para um pedido que sairá no mês seguinte", informa o diretor Roberto Guariglia. Ele destaca dois momentos de grande movimento na fábrica. "O primeiro e mais antigo é entre os meses de novembro e fevereiro, que antecede o carnaval e gera maior demanda, principalmente pelos instrumentos de alumínio, por causa de resistência e sonoridade. O segundo é entre os meses de maio e junho, que antecede o verão europeu."

 Preferido dos mestres

Quando o assunto é carnaval, o alumínio está presente. Muitos dos instrumentos usados nas baterias das escolas de samba são feitos inteiramente ou têm uma participação considerável do metal. Mestre Mi, à frente da bateria da Unidos de Vila Maria, com 250 integrantes, confirma: "Tirando nossos ganzás, no total 24, que são de madeira, o restante dos instrumentos é de alumínio".

O alumínio está presente em 95% dos instrumentos da Mocidade Alegre, conforme disse o mestre de bateria Max Resende, mais conhecido como Mestre Sombra, na atual campeã do carnaval de São Paulo. O metal aparece em tamborim, repique, ganzá, tantã, surdo, cuíca, triângulo, xilofone, entre vários outros - visivelmente mais leves. Araújo, da loja Mônaco Music Store, destaca que há diferenças sonoras entre os materiais. "Quando trocamos o aço por alumínio, podemos ver que há diferentes vibrações. O timbre do alumínio é outro, e o som, para mim, é bem melhor." Para o presidente da Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo, Paulo Sérgio Ferreira, o alumínio é o material que dá tranquilidade no desempenho do trabalho. "Há uma grande diferença na sonorização, na qualidade, no preço e no tempo de duração", enumera.

 Apesar de nem todos concordarem que o preço do instrumento de alumínio seja o mais acessível, são unânimes em afirmar que o custo-benefício vale a pena. "O instrumento de alumínio dura mais que outros materiais, a conservação é mais fácil, e uma grande vantagem é que pode molhar à vontade, o que para nós, de escola de samba, é perfeito", diz o Mestre Sombra.

"Temos parcerias com escolas de samba que buscam cada vez mais aperfeiçoar as técnicas de suas baterias, e que realizam trabalhos sérios voltados para a sua comunidade o ano inteiro. Hoje são elas: Mocidade Alegre, Unidos de Vila Maria, Vai-Vai e Imperador do Ipiranga, todas em São Paulo", conta o diretor da Contemporânea.

 A resistência oferecida pelo metal foi testada e aprovada pelo carnaval de Salvador. O trio elétrico da Ivete Sangalo deste ano foi produzido em 100% alumínio. Cerca de 10 toneladas do metal foram usadas em toda a extensão do palco. Segundo a produção da cantora, esse trio foi preparado para ser utilizado em, pelo menos, três carnavais (de 2009 a 2011).

Outras rodas


Guariglia realça, ainda, as mudanças trazidas nas últimas décadas: "O perfil dos compradores mudou, em relação ao passado. Antigamente, tínhamos somente escolas de samba e bandas escolares comprando. Hoje, temos escolas que ensinam música aos seus alunos, empresas que compram instrumentos para fazer encontros de motivação profissional com seus colaboradores e projetos sociais".

Os instrumentos fabricados pela Contemporânea são exportados para mais de 100 países. "Europa e Japão são os que mais consomem nossos produtos, por estarem mais ligados à nossa cultura", comenta o diretor da empresa. Sobre o mercado interno, Guariglia é otimista: "Neste ano, parece que o mercado financeiro estabilizou, e temos boas oportunidades de negócios. Em termos gerais, acho que o alumínio brasileiro é de boa qualidade e as empresas de quem compramos a matéria-prima são muito profissionais e responsáveis".

Segundo o percussionista Jorge Peña, de São Paulo, o metal valoriza melhor determinados estilos musicais. "O alumínio é mais leve e isso é uma grande vantagem no caso das escolas de samba. Ele favorece os instrumentos para solo, como o tamborim e a cuíca. E, pelo som mais agudo que produz, é muito interessante para ritmos como o samba e o pagode."

A conservação e a manutenção do instrumento de alumínio é mais prática, de acordo com Mestre Sombra. "Se a pessoa souber conservá-lo, vai durar bastante tempo." Já o Mestre Mi comenta que o custo com a manutenção varia de R$120 a R$ 250. "Mas é feita duas vezes ao ano e esse cuidado é suficiente para propiciar um bom e longo uso do instrumento", garante. 
 
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