Arquitetura de investimentos


Edição 21
O assessor de Projetos Estratégicos da SPTuris fala dos preparativos da cidade de São Paulo para sediar a Copa de 2014
Por Inês Pereira

O mundo inteiro estará olhando para o Brasil em menos de quatro anos. Pouquíssimo tempo para cumprir um cronograma de obras que envolve vários bilhões de reais - somente no Plano de Mobilidade Urbana, mais de R$ 34 bi.  Não à toa, São Paulo foi escolhida para ser cidade sede do maior evento midiático do planeta. Evento que receberá 45 nacionalidades e, sem a menor dúvida, exercerá um impacto imenso no recebimento dos turistas, e nos anos seguintes para a população. Também sediará o futebol nos jogos olímpicos de 2016. "A estrutura da cidade veio sendo solidificada ao longo das últimas décadas e, hoje, recebemos 11 milhões de turistas ao ano." Para 2014, certamente o know how em realizar megaeventos está sendo de grande valia, inclusive para orquestrar o gigantesco canteiro de obras que ocupa parte da cidade. A seguir, o assessor de Projetos Estratégicos da SPTuris expõe as engrenagens dos preparativos e as perspectivas de negócios para a indústria. "Nenhuma grande obra pode ser feita hoje em dia sem o alumínio", resume.

A cidade de São Paulo já está adequada às exigências da Fifa?
A Fifa impõe exigências sobre todos os setores e cada cidade precisará estudar soluções para desafios que certamente virão. Algumas não têm capacidade hoteleira, por exemplo, e precisarão correr atrás.  Em São Paulo, mais especificamente, temos o Cidade Limpa - lei municipal que proíbe a colocação de outdoors, cartazes, luminosos e qualquer tipo de propaganda que polua a cidade. Quer dizer que, em tese, a Fifa não teria exposição exterior, o que seria impensável. Uma comissão estuda como a cidade possa se "vestir de Copa", sem ferir a lei, sem fazer ação invasiva.  Por outro lado, da capacidade hoteleira, nossa cidade já dispõe, e da mobilidade urbana exigida, 1,5 quilômetro de linha de metrô até o estádio, estamos correndo com as obras para chegar lá. Desde 2007, as obras da Linha 4, que leva até o Morumbi, já estavam em andamento para ficarem prontas em 2012.

E qual é o maior desafio para São Paulo dentro dessas exigências?
As áreas livres para a Fifa explorar comercialmente, atender e receber seus patrocinadores, convidados VIP e Very VIP em parte do Clube, piscinas, no entorno do Estádio. Parece simples, afinal são 80 metros quadrados. Nosso grande problema é que essa é uma região totalmente ocupada, com adensamento populacional muito grande. Outro grande desafio está sendo do ponto de vista tributário. É que a Fifa e as confederações dos países são isentos de pagar impostos federais, estaduais e municipais, como o ISS. Também temos pessoas que estudam formas de criar mecanismos de isenção sem prejudicar o estabelecido no país. Outro exemplo é a proibição da venda de bebidas alcoólicas nos estádios de São Paulo. Entretanto, o principal patrocinador é uma marca de bebida. É um esforço grande para encontrar brechas na lei...

Quando se olha a grandiosidade do evento, pensando que São Paulo tem um grande peso entre as cidades sedes, não se pode deixar de analisar o sistema aeroportuário. O problema é que não se faz aeroportos ou grandes mudanças de uma hora para outra. E a Infraero anunciou que não vai atender a todas as exigências. Trata-se de um desafio macro.

Como está organizada a equipe responsável pela preparação para 2014?
Temos um Comitê Executivo interno, que faz a interlocução com o Comitê da Fifa.  É um grupo de trabalho ligado à Secretaria de Economia e Planejamento, cujo grande homem é Francisco Luna. O Comitê é dividido em seis frentes de atuação: 1. Infraestrutura (estádio, mobilidade urbana, saúde, segurança, transporte, saneamento, energia, governança, que inclui limpeza e iluminação); 2. Integração (responsabilidade social, legado e compatibilização da agenda Copa com a Copa das Confederações 2012, que também acontecerá em São Paulo); 3. Legislação (Cidade Limpa Copa; decretos, portarias e concessões); 4. Eventos e oportunidades (participação e parceria,  logística de eventos, eventos); 5. Turismo; 6. Comunicação e Dados (como São Paulo quer se mostrar ao mundo).

A cidade tem uma vocação natural para receber turistas de negócios. É muito diferente de receber o turista amante do futebol?
Sem dúvida, essa vocação é muito útil. Já está sendo. Nos hotéis e nas agências de receptivos, por exemplo, os profissionais falam vários idiomas. São Paulo está se tornando polo de megaeventos, mais do que Nova York e Madri. O que acontece é que, por receber 70% de turistas pessoas jurídicas, que vêm para trabalhar, a cidade está acostumada a atender um perfil mais exigente. Isso faz com que tudo tenha que funcionar muito bem. Então, vejo como uma grande vantagem.

O estádio do Morumbi está recebendo melhorias em que sentido?
Já foi apresentado ao BNDES o plano de obras, e a nova versão do projeto já foi apresentada à Fifa. A reforma é grande, uma vez que São Paulo é candidata a fazer a abertura da Copa, e envolverá de R$ 250 milhões a R$ 300 milhões. Entre as modificações previstas estão a redução da capacidade de 75 mil lugares para pouco mais de 60 mil, eliminando os pontos deficitários de visão e desconforto, e a cobertura.

Algum país está servindo como referência na preparação para a Copa e nos projetos de obras?
A Alemanha, pelo sucesso, e a África do Sul, pela superação de dificuldades. Estamos mais para África do Sul do que para Alemanha, a começar geograficamente... Alguns problemas, de certa forma, são mais semelhantes aos nossos, como empobrecimento, racismo.

As obras na cidade abriram quantas frentes de trabalho?
Ainda não acabaram as licitações. A Linha Ouro ainda vai ser licitada. Só em mobilidade urbana, são 270 mil empregos, e as licitações nem acabaram. A linha Ouro, por exemplo, ainda não foi licitada.

Quais áreas serão especialmente beneficiadas até 2014?
O sistema de mobilidade urbana vai ser o mais beneficiado, nas linhas de metrô e em todo o sistema de transporte. Problemas de décadas da cidade de São Paulo estão sendo resolvidos. Além dele, melhorar a mão de obra local, a capacitação de receptivo, sem falar no estádio transformado em arena multiuso para espetáculos, shows grandiosos e, claro, futebol. O planejamento tem que ser feito para o benefício do cidadão. O que ficar depois do evento será realmente a comprovação de que o plano deu mesmo certo. A Copa, no horizonte, é o ponto fora da curva.

De que forma pretende incluir o conceito da Sustentabilidade nos projetos?
No projeto de cobertura do Estádio do Morumbi, está previsto um sistema de captação de energia solar. Contudo,  sustentabilidade não necessariamente é ecologia, mas encontrar maneiras de ser mais eficientes gastando menos. Conseguimos, por meio da linha Ouro e dos sistemas de interligação dos terminais rodoviários, só para citar um exemplo, fazer com que o dispêndio seja menor para atingir o mesmo objetivo. Sem falar na recuperação de Paraisópolis (comunidade nascida de uma grande favela na zona sul) e nos dois piscinões do Morumbi.

Qual o espaço para o alumínio nos projetos apresentados? 
Nenhuma grande obra pode ser feita hoje em dia sem o alumínio - pela maleabilidade do produto, que se adapta às diversas formas dos projetos, por ser leve e resistente, e pelo efeito do perfil metálico. No caso do aquecimento solar, fundamental no projeto do Morumbi,  o alumínio é indispensável. Ruy Ohtake é o arquiteto da Copa em São Paulo e um entusiasta desse metal.

 
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