O alumínio invade os campos


Edição 22
Desde outubro de 2007, dirigentes, autoridades esportivas e governamentais e políticos brasileiros estão em polvorosa
Por Marcedo Ó

Desde outubro de 2007, dirigentes, autoridades esportivas e governamentais e políticos brasileiros estão em polvorosa. O Brasil recebeu, como candidato único, a dádiva (ou a dívida) de sediar uma Copa do Mundo pela segunda vez na história. Em 1950, construiu o Maracanã, usou o Pacaembu, em São Paulo, e até o hoje modestíssimo Independência, em Belo Horizonte, MG, para realizar os jogos que resultaram na dolorosa vitória do Uruguai. Hoje, projetos pipocam pelo país para receber os times da Copa de 2014; não importa se é para jogar ou treinar, o que vale é construir e reformar. E, nesse jogo, o alumínio já está escalado.

Coberturas, fachadas, estruturas, assentos e até captação de energia solar podem ser usados nas reformas e construções das subsedes que irão receber o Mundial. Os projetos apresentados à Fifa, em 2009, mostram pujança e beleza que imitam com perfeição as arenas mais modernas do planeta, caso da Allianz Arena, em Munique, na Alemanha, ou do Ninho de Pássaro, erguido para a Olimpíada de Pequim, na China. Já há até recomendações técnicas do Comitê Organizador da Copa de 2014, por exemplo, para que os assentos e seus "porta-copos" sejam feitos de alumínio. O metal poderá estar presente nos encostos e nas estruturas de apoio. E, por se tratar de um material reciclável, tornaria sustentáveis os estádios que servem aos eventos da Fifa - meta da entidade máxima do futebol.

Deve-se dizer que as novas arenas, construídas para os grandes eventos esportivos recentes, como Copa do Mundo e Jogos Olímpicos, revelam sua beleza exuberante também pelo uso do alumínio em revestimentos e coberturas. A Copa da África do Sul, que reunirá os cinco continentes em torno de telões e aparelhos de TV, traz alguns exemplos disso. O estádio Nelson Mandela, em Port Elizabeth, com capacidade para 49 mil lugares, por exemplo, é considerado um dos mais bonitos do Mundial e vai receber a decisão do terceiro lugar. Usa teto de alumínio, que dá um toque especial ao material sintético que reveste a parte superior da arena. Também favorece a luminosidade, por ser altamente refletivo.

Se dentro do campo o alumínio já está garantido - pelo menos nas travas das chuteiras de craques pelo mundo -, fora dele, o universo que se abre é imenso. Além das arenas e dos Centros de Treinamento, os CTs, obras de infraestrutura como aeroportos, hotéis e muitas outras comportam o uso do metal e a indústria também se prepara para atender a essa demanda. O setor do alumínio vislumbra um acréscimo de 20% no segmento por causa da Copa.

 "Nossa principal expectativa se refere às novas coberturas dos estádios, que deverão ser feitas com alumínio", comenta José Carlos Noronha, Coordenador do Comitê de Construção Civil da Associação Brasileira do Alumínio (Abal).

Esquadrias, estruturas, extrudados, laminados, telhas, gradis e calhas são outros produtos de alumínio que estarão presentes na Copa de 2014. Apesar de, muitas vezes, passarem despercebidos aos olhos da plateia, esses detalhes ajudarão a dar ao torcedor o conforto que um dos maiores eventos esportivos do planeta merece. Serão investidos no Mundial do Brasil e na Olimpíada de 2016 cerca de R$ 110 bilhões. Até o ano de 2018, a estimativa sobe para R$ 140 bilhões. Essa movimentação, segundo Noronha, da Abal, levará a um crescimento de 2,6% a mais por ano em todo o setor de extrusão e 0,5% no de laminação de alumínio. Nos semimanufaturados, voltados ao segmento da Construção Civil, espera-se um aquecimento de aproximadamente 5%.

Mudanças perenes

São 12 as cidades que irão receber o Mundial de 2014. Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Porto Alegre, Manaus, Natal, Recife, Salvador, Brasília e Curitiba terão seus estádios completamente reformados ou construídos. O campo é muito vasto para modernizações, pois a maioria das arenas brasileiras está obsoleta, uma vez que foi erguida nas décadas de 1950, 1960 e 1970.

Após a reconstrução, muitas dessas arenas serão colocadas à prova pelo dia a dia. Nos locais em que o futebol é mais forte, o uso será mais intenso. Por outro lado, em outras capitais, as arenas "multiuso" terão a necessidade de outros eventos para se manter viáveis e custear a manutenção, como afirma Danilo Carvalho, sócio-diretor do Grupo Stadia, que participa dos projetos de Curitiba, Manaus, Natal e do Mineirão.

"É importante criar alguns itens de multifuncionalidade, como gramados removíveis para a realização de shows, coberturas retráteis, adequação de capacidade para trazer outros eventos etc.", afirma. Também as áreas de entretenimento no estádio são importantes. "Você também pode investir na área de alimentação, ceder parte do estádio para a iniciativa privada, instalação de museus etc.", ressalta Carvalho.

Além de tornar os estádios mais bonitos e diminuir os custos de manutenção, por ser um material resistente à corrosão, o alumínio também estará em 2014 em outras estruturas: nos alambrados, para aumentar a segurança e organizar melhor a torcida nas arquibancadas; nas escadas que dão acesso às cadeiras; nos corrimãos, para dar mais segurança e beleza de acabamento. Também marcará presença nas antenas de transmissão e, nas estruturas dos painéis de publicidade ou dos telões, para reduzir o peso final da instalação.

A Fifa tem um caderno de encargos que traz recomendações e obrigações das subsedes e dos proprietários de estádios e centros de treinamento. Cada projeto apresentado tem que seguir rigorosamente os padrões da entidade, para não correr o risco de perder a festa. O Estádio do Morumbi, em São Paulo, por exemplo, tem sido duramente criticado pelo secretário-geral, Jerome Walcke, por não seguir as diretrizes impostas pela organização. O arquiteto Ruy Ohtake, um dos maiores admiradores do alumínio entre os arquitetos brasileiros, teve seu projeto rejeitado pela Fifa e o São Paulo Futebol Clube, dono do estádio, precisou aprontar um novo às pressas. A abertura do Mundial na capital paulista continua ameaçada. No entanto, uma coisa é certa: o maior evento esportivo do planeta terá como um dos seus protagonistas o alumínio, que estará em todos os palcos do espetáculo, como diria o eterno Fiori Gigliotti.

Os projetos de cada cidade

Um estudo publicado pelo arquiteto Carlos de La Corte, em 2007, na Universidade de São Paulo, mapeou os principais gargalos de quatro grandes estádios brasileiros: Morumbi, Maracanã, Mineirão e Pacaembu. Depois de um longo trabalho de diagnóstico, chegou-se à constatação de que esses quatro grandes estádios sofrem problemas de manutenção, conforto, acesso aos usuários, segurança e rentabilidade. Também alertou para o estado de conservação destas arenas, considerado "publicamente inadequado, definidor de um quadro de urgência em relação às medidas necessárias para a superação de algumas patologias construtivas (especialmente problemas estruturais e de conservação dos acabamentos do material concreto armado e dos sistemas elétrico-hidráulicos)".
O levantamento leva à conclusão, defendida pelo próprio autor: "Os estádios brasileiros, na sua maioria, estão em desacordo com as normas internacionais da FIFA, não sendo capazes de receber competições internacionais de futebol sem a realização de grandes reformas estruturais, ao mesmo tempo em que não estão preparados para dar ao público segurança e conforto, tendo em vista as recomendações bibliográficas de referência e a transformação do futebol em produto vendável". Por isso, conclui Carlos de La Corte, a maioria dos projetos para a Copa de 2014 propõe a quase completa demolição e reconstrução das arenas existentes e a construção de novos palcos.

Metrópole em obras para a Copa

São Paulo iniciou, há dois anos, a sua preparação para o Mundial de 2014. O Governo do Estado e a Prefeitura da capital irão investir, segundo informações da Secretaria de Economia e Planejamento, até 2014, um total de R$ 36,6 bilhões em obras para a melhoria do transporte na Região Metropolitana de São Paulo. Deste total, R$ 26,8 bilhões cabem ao Estado. São 21 projetos que vão permitir a redução dos congestionamentos e a ampliação da oferta de metrô e trens. "Todas as obras serão um legado para a cidade de São Paulo", destaca o secretário Francisco Vidal Luna.

Segundo ele, o conjunto inclui obras viárias importantes, "entre elas, o Trecho Sul do Rodoanel, o Complexo Jacu-Pêssego e a extensão da Avenida Roberto Marinho, novas estações do Metrô e da CPTM, além da modernização da frota de trens", completa o secretário. Esses projetos, com exceção de dois - a Linha 17 Ouro do Metrô e a Avenida Perimetral - já estavam previstos antes que a cidade fosse escolhida para sediar a Copa. No entanto, são essenciais para a mobilidade da população e dos visitantes durante o evento. Todas as obras estarão prontas até 2014.

Na área de infraestrutura urbana, as autoridades paulistas também preveem obras que facilitem o acesso ao estádio do Morumbi. Estado e Prefeitura farão obras no entorno: a Avenida Perimetral, com 6 quilômetros, ligará a região do Estádio à Marginal Pinheiros, na altura da ponte João Dias, e já está com obras em andamento pela Prefeitura. As obras do trecho final, de 2,4 km, incluirão um arrojado projeto de urbanização da Praça Roberto Gomes Pedrosa, no entorno do estádio, associada à Estação Morumbi e um estacionamento. Serão feitas, também, a canalização do córrego Antonico e a construção de dois piscinões. Tudo para deixar a cidade um brinco e sediar o Mundial como manda o figurino.

Curiosidade: Copa em Araraquara?

Não é só a capital paulista que se prepara para receber a Copa do Mundo daqui a quatro anos. A cidade de Araraquara, situada a 270 km de São Paulo, quer ser um dos centros de treinamento das seleções que irão jogar na terra bandeirante. Por isso, reformou completamente a tradicional Fonte Luminosa, sede dos jogos da Associação Atlética Ferroviária, na Série A3 do Campeonato Paulista. O estádio ficou moderno, virou "Arena da Fonte". O projeto é de Lincoln Amaral e contou com a revitalização das arquibancadas, a troca do sistema de iluminação, a construção de restaurantes e áreas de lazer. No entanto, o Governo do Estado diz que não houve ainda escolha das sedes das concentrações e informa que o Comitê Organizador da Copa lançará um caderno com orientações para quem deseja receber as delegações.

 
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