Realista com idealismo


Edição 22
O famoso designer industrial fala do desafio de unir beleza, relevância e sustentabilidade
Por Inês Pereira

Guto Índio da Costa é uma espécie de Midas do universo do design. Todo projeto que se envolve, vira sucesso. Sua sensibilidade em captar e entender as necessidades e os desejos da sociedade, e em perceber as demandas do mercado, depois traduzir todas essas percepções em algo novo, lhe renderam uma coleção de prêmios nacionais e internacionais os mais importantes. Conseqüência natural de seu talento, o escritório que leva seu nome, no Rio de Janeiro, reúne importantes clientes como GE, Arno, Gillette, Springer, O Boticário, Papaiz e Telemar. Guto criou os novos quiosques da orla carioca e assinou os projetos de reurbanização Rio Cidade Leblon; redescobriu o fogão, a geladeira, a cadeira... Seu desenho de um ventilador com duas pás translúcidas, inspirado nas linhas de um antigo avião, o Spirit, vendeu mais de 800 mil unidades. Perfeita expressão do século 21, Guto Índio reverencia o alumínio. "Um material que alia resistência e leveza em infinitas aplicações", sintetiza.

A principal característica que você aponta em seus projetos é a sustentabilidade. Como é direcionar propostas tão diversas para atender essa questão tão debatida atualmente?
Não diria que se trata da principal característica, não. Sustentabilidade é, sim, uma preocupação importante e constante, mas antes de tudo, creio que a principal característica seja relevância. Acredito que o mundo já tenha hoje um número e uma variedade enorme de produtos. Acredito que o mundo não precise de mais um produto, de mais um modelo de automóvel ou telefone celular. Acredito que o mundo precise de super-produtos; produtos que sejam realmente relevantes, inovadores, que façam real diferença - para o usuário, na forma com que é utilizado; para a indústria, na forma que é fabricado, e para o meio ambiente, na forma com que será descartado, reciclado ou reutilizado. E, evidentemente, além disso, tudo que tenha um alto valor estético e que transformem o nosso dia a dia em uma rica experiência sensorial. Atender a todas essas questões, realmente não é nada fácil e nem é sempre que temos a oportunidade. Trabalhamos para a indústria, e nossa meta é criar valor para quem usa seus produtos e, assim, criar riqueza para os nossos clientes, acionistas, funcionários e fornecedores. Casar os objetivos realistas e os objetivos idealistas é o nosso desafio.
 
No projeto da cadeira Georgos, você utilizou alumínio para construir a estrutura. Em quais outros projetos o alumínio foi um aliado no desenvolvimento? Quais as vantagens desse material?
Utilizamos alumínio em diversos projetos e produtos. Trata-se de um fantástico material, com diversas possibilidades e processos industriais (estampo, fundição, injeção, extrusão  etc.) e diversas alternativas de acabamentos. Na cadeira Georgos, propusemos uma estrutura principal de alumínio injetado; nos arbaletes da Cobra Sub, desenhamos um perfil especial para reduzir o atrito lateral e incrementar a precisão do tiro com uma guia específica para o arpão; nos equipamentos de ginástica da Movement, utilizamos o alumínio em toda a estrutura aparente, aproveitando o belo acabamento anodizado; no ventilador Spirit, utilizamos um perfil especificamente desenhado e no veiculo TEX estamos projetando uma carroceria de alumínio.

Fale sobre o TEX. Quais as diferenças desse projeto para os convencionais? Você pode descrevê-lo?
O TEX é um novo sistema de transporte urbano. Trata-se de um VLT (veiculo leve sobre trilhos) que se desloca em uma canaleta embutida no asfalto das ruas e avenidas existentes. Dentro da canaleta temos embutido todo o sistema de propulsão do veiculo (motores, rodas, truques etc.) e uma delgada estrutura metálica pantográfica eleva a cabine de passageiros a aproximadamente 2,5 m do asfalto, fazendo com que a gente tenha uma espécie de moto-ônibus, um veículo que carrega uma média de 200 pessoas em cima e ocupa a largura de uma moto no asfalto. Esta é a grande diferença desse projeto para os convencionais, o que permite sua fácil inserção nas malhas urbanas já existentes e saturadas, trazendo substancial redução de investimento público e maior rapidez em sua implantação.

Você o considera uma solução para o Brasil?
Para o Brasil e para o mundo. Toda grande cidade sofre do mesmo problema de trânsito caótico e cada vez mais caótico. O automóvel, definitivamente, não é a solução adequada para o transporte urbano, considerando o explosivo crescimento da população mundial, a densidade crescente dos grandes centros urbanos, e as projeções de consumo que indicam um crescimento absurdo da frota circulante de automóveis nos próximos anos. Principalmente este automóvel, movido a derivados do petróleo, altamente poluentes e ineficientes do ponto de vista energético, que deveria ser proibido. É um crime seu efeito no meio ambiente, onde apenas o setor de transportes gera 25% dos gases do efeito estufa. É um crime suas consequencias na saúde pública: estima-se que 800 mil pessoas morreram, em 2008, no planeta devido a poluição urbana, das quais mais de 7 mil apenas na cidade de São Paulo! Curiosamente, os governos continuam estimulando a produção desenfreada de automóveis...

Nos Estados Unidos, por exemplo, a indústria utiliza o alumínio em larga escala, nos mais diversos setores, especialmente o automotivo. O metal tem potencial para ganhar mais espaço na indústria nacional? Quais setores serão os mais beneficiados?
O alumínio tem a grande vantagem de reduzir o peso dos automóveis, reduzindo, assim, seu consumo. Mas acredito em diversas novas aplicações em diversos setores. Sem contar com a revolução que teremos, em breve, devido à nanotecnologia e às fantásticas novas características que obteremos do alumínio e diversos outros materiais.

Atualmente, cada vez mais a questão mobilidade vem sendo debatida no mundo. Mudanças nas cidades serão urgentes nesse sentido, bem como o desenvolvimento de projetos que incluam portadores de necessidades especiais. Você vê a abertura do mercado e popularização de móveis pensados para esse fim?
Necessidades especiais requerem soluções especiais e, muitas vezes, essas soluções incrementam o custo dos produtos. Um ônibus com elevador para cadeira de rodas será sempre mais caro do que um sem. A carteira escolar inclusiva, que projetamos em parceria com a ONG Noisinho da Silva, é um produto muito mais abrangente que uma carteira escolar tradicional: ela se adapta a diversas crianças, de 7 a 12 anos, por conta de um sofisticado sistema de ajustes (altura, profundidade, inclinação, apoio lombar etc.); oferece uma serie de acessórios para facilitar o manuseio por crianças com necessidades especiais; é mais larga para oferecer a possibilidade de uso com cadeiras de rodas; toda sua estrutura metálica é recoberta por uma carenagem de plástico rotomoldado, arredondada, colorida, cuja estética se insere perfeitamente no universo infantil... Enfim, seria até covardia querer compará-la a uma carteira escolar convencional. Portanto, seu custo é maior que o de um produto convencional. Será necessário que o orçamento da escola pública passe a valorizar tais diferenciais, e a contemplar a verba necessária para comprar produtos de melhor qualidade que possam atender a todos, inclusivamente. Isso vai acontecer, mais cedo ou mais tarde.

Como será a cidade ideal no futuro? Quais as principais necessidades e quais mudanças irão surgir no cenário urbano?
Maior segurança, que será trazida pela tecnologia cada vez mais presente em nossas vidas. Transporte público abrangente, confortável, rápido e eficiente. Muito menos ou quase nenhum automóvel em centros urbanos. Automóveis não poluentes, exclusivamente, e possivelmente menores. Planejamento urbano mais adequado: menor densidade demográfica, maior integração de áreas comerciais e residenciais, evitando o deslocamento em massa da população. Maior integração das várias camadas sociais, evitando guetos, como as favelas brasileiras. Mais áreas verdes e permeáveis. Mais áreas de convivência.  Como pai de pequenas crianças, mantenho as esperanças...

Quais os principais problemas das cidades brasileiras?
Insegurança, "favelização", pouco planejamento, alta densidade e crescente desordem urbana, trânsito cada vez mais insuportável e transporte público ineficiente.

O que podemos esperar para o design nos próximos 20 anos?
Soluções inovadoras para a vida das pessoas, para a indústria e para o meio ambiente; e uma estética cada vez mais refinada, para uma população cada vez mais aculturada e exigente.

Como considera o design brasileiro atual?
Estamos atravessando um boom no design brasileiro atual. Tenho a sorte de ter a oportunidade de participar desse momento, quando a indústria brasileira descobre o potencial do design, quando qualidade se torna uma commodity e o design se torna o diferencial; quando o país se lança com força no mercado internacional e necessita valorizar e qualificar seus produtos de exportação; quando a abertura comercial impulsiona o mercado interno e muda o padrão do consumidor brasileiro; quando o Brasil desponta no universo do design internacional... Esse é o momento excepcional que estamos atravessando, e grande será a responsabilidade dos designers...

Qual o projeto dos seus sonhos?
No momento, e por enquanto, o TEX. Um projeto em que o design vai muitíssimo além da criação de um produto de consumo: ele pode trazer real diferença para a vida das pessoas. Assim que for implantado, buscarei novos sonhos...

 
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