Lá vem o Sol


Edição 23
Por enquanto, apenas uma parcela muito pequena da população mundial explora o que esta fonte de energia nos oferece
Por Claudia Manzzano, colaborou Laura Berol

A energia solar fotovoltaica é a forma de produção de eletricidade que mais cresce no mundo atualmente. Segundo estudos do Instituto de Energia da Universidade da Califórnia e da Associação das Indústrias Fotovoltaicas Europeias, desde 2003, o índice de expansão dessa indústria ultrapassa 50% ao ano. Entretanto, apesar de se falar muito em energias alternativas, não poluentes e renováveis, ainda se faz muito pouco no Brasil. O país, conhecido por suas praias exuberantes e verão cheio de sol, nem de longe explora o potencial dessa fonte de energia. Sua utilização no Brasil não traria benefícios apenas para o meio ambiente, mas para setores industriais, inclusive, o de alumínio.

Mas, ao contrário do que a maioria supõe, a energia fotovoltaica não é uma descoberta recente. Os primeiros estudos que resultaram no descobrimento do efeito fotovoltaico - base de funcionamento da célula solar - datam de 1839, conduzidos pelo pesquisador francês Edmond Becquerel. A descoberta revelou que quando a luz incide sobre certas substâncias e desloca elétrons, que circulam livremente de átomo para átomo, formando uma corrente elétrica, Os estudiosos do momento acreditam que o sistema pode ajudar o país a complementar o fornecimento de energia hidrelétrica nos horários de pico.

Para isso acontecer, é necessário o desenvolvimento desse mercado. Por enquanto, a grande demanda de energia solar tem surgido nas regiões mais afastadas, onde a rede elétrica ainda não chegou e, por questões financeiras, não vale a pena chegar. O diretor comercial da Kyocera Solar do Brasil, Sergio Beninca, conta que este mercado teve dois grandes empurrões no país: o maior, com o programa no Ministério de Minas e Energia (MME), Luz para Todos, cujo objetivo é levar energia para toda a população brasileira e a implantação de telefones públicos em regiões com pequena concentração de pessoas - exigência da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações).

Por meio da assessoria de imprensa, o MME confirma que a utilização de sistemas fotovoltaicos foi amplamente difundida no Brasil, na última década, para atendimento a cargas isoladas. Essa difusão deu-se, num primeiro momento, com as ações do Programa para o Desenvolvimento da Energia nos Estados e Municípios (Prodeem) e, mais atualmente, por meio do Programa Luz para Todos.

Segundo o Plano Nacional de Energia - 2030, por enquanto o direcionamento de programas deverá permanecer restrito ao atendimento a comunidades e cargas isoladas. "Para isso, o MME elaborou o Manual de Projetos Especiais, que estabelece os critérios técnicos e financeiros aplicados nesse tipo de atendimento, tendo como principal atrativo o repasse de 85% dos recursos a título de subvenção econômica, por parte do Governo Federal. E, dentre as opções tecnológicas, serão considerados os sistemas de geração descentralizada, a partir das míni e microcentrais hidrelétricas, dos sistemas hidrocinéticos, de usinas térmicas a biocombustíveis ou gás natural, de aerogeradores, sistemas fotovoltaicos e híbridos", conta Beninca.

Porém, o alcance dessa tecnologia para a iniciativa privada ou nas residências ainda está longe por um motivo fácil de entender, o alto custo. "As maiores iniciativas brasileiras que podem gerar mais consumo de alumínio estão relacionadas ao uso de energia em coletores solares para aquecimento de água, o que é louvável, em especial porque o Brasil é um dos únicos países do mundo a utilizar chuveiros e torneiras elétricas e gasta boa parte de toda a energia elétrica gerada para o aquecimento da água nestes equipamentos", diz Anderson Oba, gerente de mercado construção civil da Alcoa Alumínio S.A.
Sucesso nos EUA

Na fazenda de energia de Nevada One, no estado de Nevada, nos Estados Unidos, a Hydro Alumínio Acro forneceu mais de três toneladas do alumínio utilizado para a vedação dos painéis fotovoltaicos, e também nas estruturas de fixação. Com capacidade de produzir energia para suprir mais de 14 mil casas, a usina térmica é considerada a terceira maior do mundo.  "O sistema traz uma série de benefícios, sendo os principais ambientais, - afinal, não emite CO2 e gera economia de energia hidrelétrica", explica Adílson Molero, consultor de marketing da Hydro. A empresa já forneceu alumínio para vários projetos de energia fotovoltaica ao redor do mundo, como Espanha e outros países Europa, e a perspectiva é de expansão. "Estamos em constante busca, trabalhando e estudando para que esse tipo de energia seja difundida", afirma.

Também nos Estados Unidos, a Alcoa já lançou alguns produtos que incorporam a tecnologia BIPV por meio de sua subsidiária Kawneer. A própria fábrica da empresa em Visalia, na Califórnia, adotou a tecnologia, instalando painéis fotovoltaicos na cobertura como fonte de energia alternativa à demandada pela planta. Recentemente, esta subsidiária da Alcoa realizou um seminário para arquitetos e construtores junto ao Lawrence Berkeley National Labs da Universidade da Califórnia, apresentando este e outros produtos que contribuem para a redução no consumo de energia em edifícios de alto desempenho.

Iniciativa pioneira

A Divisão de Extrudados da Alcoa, com presença na construção civil nacional, tem um grande interesse nas tecnologias denominadas BIPV (Built-Integrated Photovoltaic). "Temos nos esforçado para pesquisar e desenvolver produtos que permitam a integração de paineis fotovoltaicos com nossas linhas para construção civil, mais especificamente nas fachadas de alumínio em edifícios comerciais, que comportem o sistema de células e todos os demais componentes de transmissão e armazenamento da energia gerada", conta Oba.

A Alcoa já desenvolveu um primeiro protótipo desse produto, que deverá ser aprimorado para melhorar sua eficiência energética e viabilidade comercial. "A grande dificuldade, hoje, é que a eficiência obtida na geração de energia solar fotovoltaica em fachadas comerciais é pouca em relação ao custo de instalação desses sistemas, já que, no Brasil, não existe nenhuma empresa que ofereça esta tecnologia em escala industrial. Para quem constrói e para quem ocupa um edifício comercial, só seria viável se trouxesse algum benefício financeiro como autogeração ou uma boa economia no consumo de energia", avalia. Com a tecnologia atual, para economizar cerca de R$ 100 na conta de energia, o investimento na tecnologia seria de cerca de US$ 15 mil, o que não viabilizaria o projeto.

Ao longo dos últimos 50 anos, a Votorantim Metais vem investindo na autogeração de energia por meio das usinas hidrelétricas, consideradas uma das fontes mais limpas, como um diferencial competitivo. Para manter sua competitividade, a Votorantim Metais gera cerca de 85% da energia necessária para a operação das unidades industriais.

Em dezembro de 2009 entrou em operação a usina de Salto Pilão, no rio Itajaí-Açu, em Santa Catarina, na qual a empresa detém 60% de participação. A capacidade instalada deste empreendimento é de 182,3MW.  A usina Salto do Rio Verdinho, no rio Verde, em Itarumã (GO), está em fase final de construção, com capacidade instalada de 93 MW. A UHE pertence integralmente à Votorantim Metais e a previsão é que as obras sejam concluídas no primeiro semestre deste ano.

O mundo e a solução

Essa realidade só foi possível até aqui por conta do incentivo dado pelo setor público, seja financiando pesquisas, projetos e empresas do setor de energia solar, seja estimulando ou desburocratizando o acesso da população para realizar a pequena geração de energia para sua casa ou comunidade.

Nos Estados Unidos, o presidente Barak Obama já determinou que dará maior ênfase à adoção de energias renováveis na matriz do país, entre elas, a solar. Sendo os EUA o maior consumidor público e privado de energia, isso deve significar um grande avanço, tanto no estímulo governamental para adoção das tecnologias renováveis existentes para geração de energias - solar, eólica, biomassa e hidráulica - quanto no maior investimento em pesquisa de novas tecnologias. "No mundo todo, os efeitos do aquecimento global e a crescente preocupação com a sustentabilidade devem se traduzir num gradual desinteresse pelo investimento em processos de geração de energia de fontes esgotáveis ou sujas, como a energia térmica gerada a partir de queima de combustíveis fósseis", analisa Oba.

Beninca, da Kyocera, argumenta que 76% da produção de energia solar no mundo são produzidos por meio do sistema de conexão em rede. "Esse sistema consiste em casas com geração de energia solar para consumo particular; a energia que sobra do consumo da residência é vendida para a concessionária", descreve. "Um terço da energia gerada pela Usina de Itaipu, por exemplo, seria produzido em um milhão de casas", defende o diretor da Kyocera. Ele conta que esse sistema será usado em estádios de futebol que sediarão a Copa de 2014, em vários estados brasileiros. "A arquibancada de um estádio é um lugar perfeito para a captação de energia solar e os estabelecimentos poderão vender a energia que não usarem."

A entrada de vez da conexão desses sistemas à Rede (Sistema Interligado Nacional) no Brasil depende, nesse momento, de uma análise da regulamentação atual do setor elétrico, no intuito de mensurar e qualificar as condições técnicas, econômicas e regulatórias sob as quais essa geração possa ocorrer. O MME explica que "especificamente quanto ao aspecto técnico, deve-se levar em consideração que a injeção desta energia deve ser feita a partir de critérios bem definidos, de forma a não comprometer a qualidade, segurança e confiabilidade do sistema elétrico. Apesar do sucesso de tal experiência em outros países, a sua transferência para o Brasil não poderá ser direta, apenas com a importação e instalação de equipamentos; antes, será preciso adaptá-los às condições operacionais de nossas redes".

O país já tem alguma experiência com este tipo de sistema em algumas universidades e centros de pesquisa, como a Casa Solar do Cepel. No entanto, o MME diz que é preciso realizar testes de inserção simultânea de um número maior de sistemas, de forma a avaliar corretamente seu impacto na rede distribuidora e propor soluções adequadas para possíveis problemas. "A partir desta experiência pode-se, gradativamente, evoluir para programas maiores, até se chegar a um programa de larga escala, que poderá ser implantado sem comprometimento da segurança do sistema existente, mantendo sua economicidade e permitindo a quantificação dos valores para a remuneração tanto dos particulares quanto das companhias de eletricidade."

Perspectivas

O governo federal não está parado. O MME criou um Grupo de Trabalho de Geração Distribuída Solar Fotovoltaica - GT-GDSF para estudar as possibilidades desse sistema. O Grupo é composto de especialistas de centros de pesquisas com núcleo de excelência na área de energia solar e representantes da Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Energético - SPE e da Secretaria de Energia Elétrica - SEE.

Se a conclusão do Grupo de Trabalho for favorável ao início deste sistema de distribuição de energia no Brasil, os consumidores de energia poderão escolher seu sistema de aquecimento. Além disso, a indústria pode ser muito beneficiada. Atualmente, todo módulo solar é fabricado fora do Brasil. E como não há demanda suficiente para a produção no país, a única maneira de conseguir instalar energia solar é importando o material. Mas Beninca explica que, se a conexão em rede se tornar realidade por aqui, a produção em escala tornará viável a instalação de fabricas de módulos nacionais. Ele garante que a Kyocera já tem planos avançados para sua planta no Brasil, mas espera o momento ideal para se fixar em terras brasileiras.

 
- Vantagens muito além da proteção
- Alçando voos
- Nas pistas e nas ruas
- Aqui tem alumínio








 
 + EXPEDIENTE