O alumínio, metal leve, resistente e infinitamente reciclável, é essencial para a criação de veículos mais eficientes e sustentáveis, sendo amplamente utilizado em componentes estruturais e de propulsão dos veículos. Com a chegada do programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover), a sua importância na indústria automotiva brasileira será ainda mais evidente, incentivando seu uso e abrindo novas oportunidades para o setor.
Sancionado em junho deste ano pelo presidente da república, Luiz Inácio Lula da Silva, o Mover visa a impulsionar a descarbonização do setor automotivo brasileiro, com foco no desenvolvimento e na produção de veículos elétricos e híbridos, além de combustíveis alternativos. Ele substitui o Rota 2030 e prevê a redução de impostos para empresas que investirem em pesquisa e desenvolvimento, além de estabelecer limites mínimos de reciclagem na produção de veículos.
O Mover também cria o Fundo Nacional de Desenvolvimento Industrial e Tecnológico (FNDIT), gerenciado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES), e o IPI Verde, um sistema no qual quem polui menos paga menos imposto. O programa conta com um total de R$ 19,3 bilhões em créditos financeiros entre 2024 e 2028, que podem ser usados pelas empresas para abatimento de impostos federais em contrapartida a investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) e novos projetos de produção.
Casamento perfeito
Durante o 9º Congresso Internacional do Alumínio, realizado pela Associação Brasileira do Alumínio (ABAL) em abril deste ano, Camilo Adas, conselheiro de Tecnologia e Transição Energética da SAE Brasil, destacou, no painel “O alumínio revolucionando a mobilidade verde”, o papel crucial do programa Mover na promoção de um setor automotivo mais sustentável e inovador no Brasil, alinhado com as demandas globais por tecnologias mais limpas e eficientes.
Adas enfatizou que o alumínio, com suas propriedades únicas, torna-se um aliado estratégico nessa jornada, contribuindo para a redução de emissões e o aumento da eficiência energética dos veículos.
“A indústria automotiva e de mobilidade demanda cada vez mais alumínio, e o Brasil, com seu potencial, pode liderar esse crescimento. Ao explorarmos os benefícios do programa Mover, que incentiva a sustentabilidade e a inovação, e adotarmos o conceito de ciclo de vida completo dos materiais, do ‘berço ao túmulo’, poderemos alcançar um futuro promissor para o setor”, considera.
Erwin Franieck, diretor-executivo da SAE4Mobility e secretário-executivo do projeto MiBi – Made in Brasil ilimitado, que também participou do painel no congresso, ressaltou que o alumínio desempenha um papel fundamental em diversos Grupos de Trabalho (GT) do MiBi desde que ele foi criado pelo Ministério da Economia, pois, além de ser essencial para a produção de baterias de lítio, o metal é utilizado em componentes eletromecânicos, rodas forjadas e outros itens que impactam a competitividade da indústria automotiva nacional.
O MiBi dedica-se a mapear as necessidades e oportunidades na cadeia de valor, impulsionar a competitividade da indústria, eliminar obstáculos à produção nacional e assegurar o fornecimento constante ao mercado brasileiro. Para alcançar esses objetivos, o projeto conta com a colaboração voluntária de diversas entidades, como a Associação Brasileira do Alumínio (ABAL), a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), o Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças), entre outros, que se unem na busca de soluções para reduzir a importação de itens que o Brasil tem capacidade de produzir localmente.
Franieck destaca um exemplo revelador: os Grupos de Trabalho (GTs) do MiBi constataram que o Brasil importa majoritariamente peças metálicas, mesmo possuindo minérios de alta qualidade e baixo custo que poderiam ser utilizados para a produção interna.
“É por isso que o MiBi se dedica em desmistificar crenças limitantes, como a ideia de que o ferramental de fundição de alumínio é muito mais caro no Brasil, incentivando a procura de fornecedores locais e a redução da dependência de importações. Nós vamos criar uma onda de busca pela nacionalização. E por isso o projeto Mover também está aí, pois se alinha com o MiBi, privilegiando essa visão”, afirma Erwin Franieck.
Incentivo à redução de emissões
A produtora de alumina Norsk Hydro Brasil vê o programa Mover como um passo importante para impulsionar a sustentabilidade no setor de alumínio. Anderson Baranov, CEO da empresa, explica que incentivos à redução de emissões de carbono são essenciais para valorizar e proteger empresas comprometidas com o meio ambiente.
A Hydro já tem investido em tecnologias para a produção de alumínio de baixo carbono. Na Alunorte, a conversão de equipamentos para gás natural e a instalação de caldeiras elétricas reduzirão as emissões em 30% ainda em 2024. A meta da empresa é ambiciosa: reduzir as emissões em 70% até 2030 e alcançar zero emissão até 2050.

Na sua mineração de Paragominas (PA), a Hydro também começou a utilizar carros elétricos na rotina operacional em 2023, substituindo modelos convencionais abastecidos com diesel – hoje eles representam 10% da frota de veículos leves. O uso dos carros elétricos significa uma redução de emissão de 600 t de CO2 em cinco anos, representando o plantio de 1.660 árvores nesse período.

Baranov ressalta que a Hydro está implementando essas ações mesmo antes de o mercado estabelecer recompensas, demonstrando seu compromisso com a sustentabilidade. Ele acredita que o programa Mover pode estimular ainda mais esse movimento, não apenas na Hydro, mas em todo o setor.
“Globalmente, sobretudo na Europa, já há mecanismos de incentivo para que as companhias controlem suas emissões de carbono. Para ser competitivo externamente, o setor produtivo brasileiro precisa se adaptar a fim de cumprir exigências – que devem continuar aumentando. Incentivos que levem em consideração as características do setor brasileiro são essenciais para que esse movimento seja completo”, considera Baranov.
Oportunidade de expansão
A empresa global de laminados e reciclagem de alumínio Novelis avalia o programa Mover como uma oportunidade para expandir o uso do alumínio no setor automotivo brasileiro, colaborando com as metas de sustentabilidade e descarbonização.
“Essa evolução no setor automotivo traz desafios, mas também abre novas possibilidades para novos materiais, como o alumínio, que tem como um dos principais diferenciais a baixa massa específica, contribuindo para a redução de peso, que diretamente se traduz em aumento da eficiência energética e diminuição de emissões dos veículos. Além disso, o alumínio possui uma ótima capacidade de absorção de energia, o que aumenta a segurança veicular, e trabalhada da forma correta a sua capacidade de reciclagem, é tranformado em um material infinitamente reutilizável”, afirma Bruno Hipólito, gerente sênior de Vendas para a América do Sul da Novelis.
A empresa pretende aproveitar os incentivos do programa colaborando com iniciativas de P&D na cadeia produtiva, buscando identificar e suprir as lacunas tecnológicas na aplicação do alumínio. A Novelis já possui metas ambiciosas de redução de emissões de carbono, como a neutralidade até 2050. Como fornecedora de matéria-prima para o Mover, vê uma oportunidade para acelerar essas melhorias e produzir alumínio com baixa emissão de CO2eq.
Hipólito destaca ainda que ao entender e abordar as emissões de gases de efeito estufa ao longo de diferentes ciclos de vida dos produtos, como os ciclos do berço ao portão, do poço à roda e do berço ao túmulo, o Brasil posiciona-se de forma pioneira na corrida pela descarbonização.
“Nesse contexto, o alumínio surge como alternativa promissora para apoiar as metas do setor. O contínuo desenvolvimento tecnológico e os investimentos em inovação no uso do alumínio são essenciais para alinhar a indústria nacional às exigências globais de sustentabilidade e eficiência, fortalecendo sua posição no mercado global”, aponta.
Projetos em andamento
A Maxion Structural Components, empresa global em componentes estruturais automotivos, está impulsionando a inovação no setor de alumínio por meio do Mover, buscando soluções mais leves, eficientes e sustentáveis para a indústria automotiva.
Durante o 9º Congresso Internacional do Alumínio, Marco Tulio Ribeiro Ricci, diretor global de Inovação e Estratégia da empresa, apresentou o case de sucesso da Maxion no desenvolvimento de uma longarina de alumínio e um berço de bateria de ônibus, ambos com foco na redução de peso e custo.
“Partimos do problema do cliente para encontrar a melhor solução, testando tanto a aplicação como o processamento do material. Em relação à longarina de alumínio, componente essencial na estrutura do veículo, a Maxion conseguiu criar uma liga capaz de suportar os esforços exigidos, ao mesmo tempo que garante um processo de fabricação eficiente e de baixo custo”, explica Ricci.
Já referente ao berço de bateria de ônibus, desenvolvido em parceria com a Novelis e a CBA, a empresa superou a meta de redução de peso em 30%, alcançando impressionantes 64%. Além disso, a solução de alumínio mostrou-se mais barata que a versão de aço, mudando a percepção do mercado de que materiais mais leves são necessariamente mais caros.
“O consumidor está disposto a pagar por produtos mais sustentáveis, e as montadoras buscam a redução de peso para aumentar a autonomia dos veículos elétricos”, afirma Ricci. A empresa acredita que, por meio do trabalho colaborativo, investimentos em P&D e incentivos governamentais, como o Mover, é possível criar um futuro automotivo mais leve, eficiente e acessível.
O Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e a Empresa Brasileira de Inovação Industrial (Embrapii) também estão com diversos projetos que pretendem transformar o setor automotivo e energético brasileiro com recursos do programa Mover. Um deles almeja alcançar a independência tecnológica na produção de baterias de íons-lítio e conta com a participação de várias empresas de diversos setores, incluindo grandes nomes da indústria do alumínio, como CBA e Novelis.
A proposta é de desenvolvimento de células cilíndricas e prismáticas de íons-lítio em ambiente pré-industrial, promovendo, assim, a cadeia de valor nacional em torno da tecnologia de baterias de íons-lítio. A expectativa é que o projeto impulsione a economia, gere empregos e contribua para um futuro mais sustentável, com a produção de veículos elétricos e o armazenamento de energia renovável.

Inovações do Mover em relação ao programa Rota 2030
Abrangência ampliada
A política de mobilidade agora abrange não apenas veículos automotores, mas também máquinas agrícolas e rodoviárias.
Requisitos obrigatórios mais rígidos
Além da rotulagem veicular com requisitos de segurança e eficiência energética “do tanque à roda”, o Mover introduz a medição “do poço à roda” e exige o uso de material reciclado na fabricação dos veículos.
Tributação verde
Um sistema “bônus-malus” no IPI incentiva a produção e a compra de veículos mais sustentáveis, com alíquotas definidas por decreto presidencial.
Incentivos à inovação
Créditos financeiros são concedidos em proporção aos investimentos em P&D, estimulando o desenvolvimento tecnológico.
Programas prioritários
Redução do Imposto de Importação para fabricantes que investem em projetos de P&D e em “programas prioritários” na cadeia de fornecedores. Os recursos serão destinados ao Fundo Nacional de Desenvolvimento Industrial e Tecnológico (FNDTI), gerenciado pelo BNDS.
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