Faltando menos de um mês para a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30), que colocará o Brasil no centro das discussões sobre sustentabilidade, o País celebra hoje, 28 de outubro, uma iniciativa que já é um grande exemplo de economia circular: o Dia Nacional da Reciclagem do Alumínio.
Instituída pela Associação Brasileira do Alumínio (ABAL) há 22 anos, a data não é apenas um reconhecimento da cadeia produtiva, mas um lembrete do potencial infinito de um metal cuja reciclagem é indispensável para o desenvolvimento sustentável brasileiro. Afinal, enfrentar a crise climática — tema central das negociações globais na COP 30 — passa por transformar resíduos em recursos e dar novo ciclo àquilo que parecia ter chegado ao fim.
“O Brasil tem uma posição de destaque no cenário internacional, tanto pela eficiência de sua cadeia de reciclagem como pelo potencial de contribuir com uma economia de baixo carbono. A sucata de alumínio é mais do que um resíduo, é um insumo estratégico. Nosso desafio é garantir que o alumínio reciclado continue sendo um diferencial competitivo nacional”, destaca Janaina Donas, presidente-executiva da ABAL.
Referência
Essa celebração do Dia Nacional da Reciclagem do Alumínio é mais do que simbólica, ela é sustentada por números que posicionam o Brasil como referência e líder mundial em economia circular. Segundo a ABAL, em 2024, reaproveitamos 97,3% das latas de alumínio para bebidas — o equivalente a 33,9 bilhões de unidades ou 417,7 mil t de material reciclado. São dezesseis anos consecutivos com índices superiores a 96%.
O protagonismo do Brasil, no entanto, vai muito além das latas. Cerca de 60% de todo o alumínio consumido aqui vem de fontes recicladas — quase o dobro da média global. Esse índice inclui não apenas embalagens, mas também resíduos industriais e sucatas de setores como construção civil, transporte e bens duráveis.
Tamanha força se reflete ainda na produção nacional. Em 2024, o Brasil fabricou cerca de 1,9 milhão de t de produtos de alumínio, impulsionado pelo aumento do consumo per capita, que passou de 7,8 para 8,8 kg por pessoa. Desse total, 1 milhão de t tiveram origem em material reciclado — o equivalente a 57% da produção nacional, mais que o dobro da média mundial, de 28%.
De acordo com a ABAL, essa estrutura diversificada garante segurança no suprimento como fonte complementar ao alumínio primário e contribui diretamente para a redução das emissões de carbono.
Desenvolvimento sustentável
Segundo Diego Canto, gerente de Operações dos Centros de Coleta da ReciclaBR, a reciclagem de alumínio reúne benefícios ambientais, econômicos e sociais. Por consumir apenas 5% da energia necessária para produzir alumínio primário, o processo reduz em até 95% o uso de eletricidade e as emissões de gases de efeito estufa, além de diminuir a extração de bauxita e preservar recursos naturais. E o metal pode ser reciclado infinitas vezes sem perda de qualidade, o que o torna um exemplo prático de economia circular. Essa eficiência também se traduz em impacto social e econômico: a cadeia da reciclagem sustenta milhares de catadores e cooperativas, gerando renda para várias famílias. O uso do alumínio reciclado ainda oferece vantagem competitiva às indústrias, por ser mais barato e menos intensivo em energia.
Para manter o alto índice de reciclagem de latas e fortalecer toda a cadeia de coleta, por exemplo, a ReciclaBR tem investido em ações que combinam eficiência operacional, parceria e valorização social. A empresa desenvolve parcerias estratégicas com grandes geradores de resíduos, o que garante um fluxo contínuo de material reciclável e maior qualidade na coleta. Ao reduzir o tempo entre a geração e o recolhimento dos resíduos (lead time), o alumínio chega em melhores condições às unidades de processamento, evitando a degradação do material.
“Nosso foco é garantir eficiência em todo o ciclo operacional, da coleta ao processamento do alumínio. Com parcerias estratégicas, recebemos materiais com mais qualidade e agilidade. Nossa operação logística conecta 26 centros de coleta às quatro plantas produtivas, fortalecendo a capilaridade e a liderança da ReciclaBR como a maior operação de coleta e processamento de sucata do País, colaborando para a sustentabilidade da cadeia e para o fortalecimento dos catadores e das cooperativas que fazem parte desse sistema”, afirma Diego Canto.
Ações da indústria
A Companhia Brasileira de Alumínio (CBA) vem intensificando seus investimentos para ampliar a reciclagem do metal em diferentes setores da economia, com foco no aumento da capacidade de fusão, modernização da infraestrutura e adoção de novas tecnologias. Entre as principais iniciativas estão o forno Sidewell, instalado na Metalex em 2021, que possibilita a fusão da sucata pós linha de reciclagem, com alto rendimento metálico. Isso elevou a capacidade de produção de tarugos de 75 mil para 90 mil t por ano, e a nova linha de tratamento de sucata, entregue em 2023, que permitirá elevar gradualmente a participação de sucata na produção de tarugos de 60% para até 80%. Com capacidade de processar 100 mil t de sucata por ano, essa tecnologia garante maior pureza ao alumínio reciclado e reduz emissões, ao eliminar impurezas como ferro, plástico e resíduos de construção civil.

“No campo da infraestrutura, a CBA projeta a criação de novos centros de processamento e reciclagem, além de pátios e tecnologias voltadas ao tratamento de sucatas mais complexas. Atualmente, a empresa já opera unidades em Araçariguama e São José do Rio Preto (SP), ambas com capacidade de 400 t por mês, dedicadas à captação de sucata pós-consumo. Esses centros exercem também um importante papel social ao fortalecer cooperativas e pequenos fornecedores locais, oferecendo capacitação, estimulando a inclusão socioeconômica e contribuindo para a formalização da cadeia de reciclagem. Com isso, a companhia impulsiona um ciclo sustentável que combina eficiência industrial e impacto positivo nas comunidades em que atua”, afirma Roseli Milagres, diretora de Negócio de Produtos Transformados e de Reciclagem da CBA.
Quem também tem direcionado investimentos contínuos para ampliar a capacidade de seu Complexo Integrado de Laminação e Reciclagem de Alumínio, reconhecido como o maior do mundo, é a Novelis. A empresa também reforça sua atuação na cadeia de reciclagem por meio de catorze centros de coleta distribuídos em todas as regiões do Brasil, os quais aproximam a indústria de cooperativas, catadores e pequenos fornecedores. Essa estrutura garante remuneração competitiva para mais de 800 mil famílias que vivem da coleta de sucata e contribui para que as chapas produzidas pela companhia tenham, em média, 80% de conteúdo reciclado, fortalecendo a economia circular e a sustentabilidade em escala nacional.
“Olhando para o futuro, a ambição da Novelis é reforçar sua liderança global com iniciativas que vão desde investimentos em tecnologia e inovação até a participação em debates globais como a COP 30, mostrando o Brasil como referência em economia circular do alumínio. Podemos afirmar, sem dúvida, que investir na reciclagem e circularidade do metal é investir no desenvolvimento sustentável, na descarbonização, na geração de empregos e em um futuro melhor para todos”, aponta Elizabeth Shie, head de Estratégia da Novelis América do Sul.
A AMG Brasil tem intensificado suas ações para ampliar a reciclagem de alumínio nos diversos setores em que atua, com foco no uso eficiente de recursos e na redução de impactos ambientais. Entre as principais iniciativas estão o incentivo ao uso de fontes alternativas de matérias-primas e o aprimoramento das operações industriais a fim de otimizar processos e ampliar a eficiência. A companhia também vem investindo no desenvolvimento de infraestrutura voltada ao reaproveitamento de refugos, bem como na minimização de perdas produtivas, com destaque para o aumento do rendimento metálico por meio da redução do alumínio contido nas borras. Apesar dos avanços, a empresa reconhece que ainda há desafios importantes na reciclagem de alumínio para além das latas.
“Existe uma variedade muito grande de alumínio alternativo e reciclado disponível no mercado, mas muitos desses materiais ainda são inadequados ao processo de muitas fundições devido à presença de elementos contaminantes e à composição química desfavorável. É necessário que existam mais iniciativas e empresas responsáveis pela coleta, pelo processamento, pela limpeza e pela separação correta das sucatas de acordo com sua composição química, de forma que o alumínio reciclado seja compatível com as necessidades da empresa”, aponta Edmar Castro, gerente-geral da Unidade de Materiais Especiais da AMG Brasil.
Ciclo completo
A reciclagem do alumínio também faz parte de projetos da Nespresso Brasil que envolvem a circularidade, reforçando o compromisso da marca com a sustentabilidade. Em uma das suas iniciativas, por exemplo, as cápsulas usadas passam por um processo de separação: a borra de café é transformada em biometano, uma fonte de energia renovável, enquanto o alumínio das cápsulas é reciclado e reinserido na indústria para a produção de novos produtos, garantindo que tanto o metal como os resíduos orgânicos tenham um ciclo produtivo sustentável e de baixo impacto ambiental.
A marca está envolvida na criação de projetos que dão novos usos ao alumínio reciclado. Em parceria com a Natura, por exemplo, mais de 2 t de cápsulas de alumínio foram transformadas em embalagens da linha Ekos Castanha. Além disso, a cenografia de Natal do Shopping Pátio Paulista no final do ano passado foi feita com mais de 50 mil cápsulas usadas, todas reaproveitadas. Esses são exemplos de como o alumínio pode ter uma segunda vida de forma criativa e sustentável.
A Nespresso oferece acesso à reciclagem para 100% dos seus clientes, por meio de mais de 400 pontos de coleta, 34 boutiques e logística reversa gratuita promovida pelos Correios.
“A circularidade é uma jornada e um compromisso que compartilhamos com nossos consumidores. Hoje, temos capacidade de receber e dar a destinação correta a todo nosso volume de cápsulas vendido no País. Os consumidores, por sua vez, têm se tornado cada vez mais conscientes de suas escolhas. Na Nespresso acreditamos que, juntos, marca e cliente são uma força propulsora em direção a um futuro mais sustentável”, afirma Mariana Marcussi, diretora de Marketing e Sustentabilidade da Nespresso Brasil.
Desafios da reciclagem
O gerente da ReciclaBR explica, no entanto, que, apesar do sucesso da reciclagem de latas, outros setores no Brasil ainda enfrentam grandes desafios para ampliar o reaproveitamento do alumínio. No caso das indústrias automotiva e da construção civil, a principal barreira é a disponibilidade da sucata de obsolescência, já que peças e estruturas têm vida útil longa e demoram décadas para retornar ao ciclo produtivo. Além disso, a logística reversa ainda é limitada, dificultando a coleta e a separação dos materiais.
A qualidade e a pureza do alumínio reciclado também são fatores críticos, especialmente em segmentos de alto desempenho, como o automotivo e o aeroespacial, que exigem materiais com especificações rigorosas. Outro ponto desafiador está nas embalagens multimatérias, compostas por diversas camadas de plástico, papel e alumínio, cuja separação em escala industrial requer tecnologia avançada e investimentos contínuos em inovação.
Roseli Milagres, da CBA, alerta para outro ponto crítico: a contaminação, pois grande parte dessas sucatas contém impurezas metálicas — como ferro, cobre e zinco — ou está associada a outros materiais, como plásticos, tintas e resinas, o que demanda o uso de tecnologias de separação e fusão mais sofisticadas para garantir qualidade e eficiência na recuperação do metal.
De acordo com Roseli, há ainda o desafio da rastreabilidade e da formalização, pois uma parcela significativa da sucata de alumínio continua circulando no mercado informal, o que reduz o potencial de retorno ao ciclo produtivo formal e gera distorções de preço.
“Superar esses obstáculos é essencial para ampliar a reciclagem do alumínio além das latas e consolidar um modelo verdadeiramente circular e competitivo para o setor”, afirma a diretora da CBA.
Nesse contexto, Elizabeth Shie, da Novelis, alerta ainda que a indústria da reciclagem de alumínio no Brasil, reconhecida mundialmente como referência em economia circular, enfrenta um desafio adicional: o aumento expressivo das exportações de sucata. Segundo a empresa, esse movimento ameaça uma cadeia produtiva consolidada, sustentável e responsável por gerar renda a milhares de famílias. A Novelis defende um diálogo contínuo entre indústria, governo e demais elos da cadeia para encontrar soluções que equilibrem a competitividade externa e garantam o abastecimento do mercado nacional.
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