O Brasil vem se destacando no cenário internacional como um exemplo positivo na produção de alumínio de baixo carbono. A combinação de recursos naturais abundantes, tecnologias avançadas e o compromisso crescente com a sustentabilidade impulsiona o País rumo a uma indústria mais verde e eficiente. O uso predominante de energia hidrelétrica e a implementação de práticas sustentáveis em toda a cadeia produtiva reforçam o destaque do Brasil nesse cenário.
Na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP28), realizada em Dubai em 2023, o Brasil foi destaque como líder na produção de alumínio com baixo impacto ambiental, enfatizando sua baixa intensidade de carbono, que é 3,3 vezes menor que a média global. A reciclagem é uma questão importante nesse sentido, reduzindo significativamente o consumo de energia e as emissões de gases de efeito estufa (GEE). Em 2022, para se ter uma ideia, o Brasil alcançou um marco importante ao atingir 100% de reciclagem de latas de alumínio, evitando emissões substanciais, além de gerar empregos.
Essas práticas não só atendem as exigências de mercados globais como também servem de inspiração para outras nações que buscam reduzir suas pegadas de carbono.
Em sua apresentação no 9º Congresso Internacional do Alumínio, realizado em maio deste ano, Janaina Donas, presidente-executiva da Associação Brasileira do Alumínio (ABAL), destacou as qualidades que consolidam o Brasil como líder na produção de alumínio sustentável. Além disso, reafirmou o compromisso do setor de impulsionar o desenvolvimento e o crescimento do País, aproveitando o potencial do alumínio para gerar empregos, renda, inovação, exportações e contribuir para um futuro mais sustentável.
“Nós não temos dúvidas de que o alumínio é um material estratégico para atendimento das demandas de mercados consumidores altamente exigentes, como setores de embalagens, transportes, eletricidade, construção civil e bens de consumo, entre outros. O Brasil reúne uma série de vantagens competitivas para fortalecer sua indústria de base, com a disponibilidade de ativos estratégicos, a verticalização da cadeia e a forte agregação de valor. No entanto, tais vantagens precisam ser mais bem aproveitadas, afinal nós não somos apenas um País exportador de commodities”, afirmou Janaina.
A presidente da ABAL indicou ainda um futuro promissor para a indústria brasileira de alumínio de baixo carbono, anunciando mais de R$ 30 bilhões de investimentos a serem captados em uma série de iniciativas até 2025.
O papel do governo
O apoio governamental tem sido crucial para impulsionar o Brasil como referência mundial na produção de alumínio de baixo carbono. Tatiana Prazeres, secretária de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), enfatizou esse compromisso em sua participação no 9º Congresso Internacional do Alumínio, destacando o papel do governo no fomento à indústria e ao desenvolvimento sustentável do setor.
Por esse motivo, segundo ela, o Programa Nova Indústria Brasil, lançado pelo governo federal este ano, prevê investimentos de mais de R$ 300 bilhões até 2026 em diversas áreas. O alumínio, com sua baixa pegada de carbono e alto potencial de reciclagem, é um dos setores que mais se beneficiarão dessa iniciativa.
“O programa abrange seis missões estratégicas, e eu enxergo o alumínio em torno de todas essas missões. Ele desempenha um papel fundamental, seja na indústria da saúde, na transformação digital, na descarbonização, na bioeconomia, no setor de defesa ou no transporte. E são missões que contribuem para a mobilização de esforços públicos e privados, visando a fortalecer a indústria e impulsionar a economia brasileira.”
O objetivo, de acordo com Tatiana, é incentivar uma indústria mais inovadora, digital, sustentável, exportadora e produtiva, com foco na produtividade como motor essencial. E, diante desse cenário, o setor do alumínio é estratégico para o Brasil, com cerca de 15 mil empregos diretos e indiretos, representando 6,8% do PIB industrial e com uma balança comercial superavitária.
“O alumínio é um setor essencial na transição para uma economia de baixo carbono, e o Brasil, com seus ativos estratégicos de alta qualidade, como as vastas reservas de bauxita e a capacidade de gerar energia limpa e renovável, está em uma posição privilegiada para atrair investimentos e liderar a produção de alumínio altamente competitivo e sustentável”, considerou.
A secretária disse ainda que o País possui uma legislação rigorosa em relação às emissões de gases de efeito estufa e ao uso de recursos naturais, buscando cada vez mais medidas para incentivar a reciclagem e o uso de tecnologias limpas. Além disso, o Brasil tem participado ativamente de fóruns internacionais sobre o tema, compartilhando sua experiência e buscando soluções conjuntas para os desafios da sustentabilidade.
Reciclagem
O Brasil lidera o ranking global em reciclagem de latas de alumínio, com 100% das latas de bebidas recicladas em 2022, totalizando 390.200 t de alumínio reutilizado. Mais da metade do alumínio consumido no País provém de reciclagem, superando a média mundial de 30%, segundo a ABAL.
Dados do Ministério do Meio Ambiente apontam ainda que, de 2019 a 2021, a reciclagem dessas latinhas proporcionou a redução de 70% no consumo de energia, de 65% no consumo de água e de 70% nas emissões de gases de efeito estufa.
No Congresso Internacional do Alumínio, José Roberto Canto, sócio-proprietário da ReciclaBR, ressaltou que esses dados evidenciam a sólida cultura de reciclagem de alumínio no Brasil, posicionando o País como uma referência mundial.
“Essa reciclagem é fundamental, pois ela promove a sustentabilidade ao reduzir a quantidade de resíduos e emissões de carbono resultantes da produção do alumínio primário e ainda diminui a necessidade de utilização de aterros sanitários”, afirmou.
Setor do alumínio
Empresas brasileiras estão na vanguarda da revolução verde, demonstrando na prática como o Brasil está se tornando um exemplo positivo na produção de alumínio de baixo carbono. A seguir, destacamos alguns casos de sucesso que ilustram de que forma a combinação de recursos naturais abundantes, tecnologias avançadas e forte compromisso com a sustentabilidade está transformando a indústria do alumínio no País em uma referência para o mundo.
Alcoa
Com a ambição de alcançar zero emissão de carbono até 2050, a Alcoa aportou R$ 1,6 bilhão nos últimos três anos em projetos sustentáveis nas suas três operações: São Luís (MA), Juruti (PA) e Poços de Caldas (MG). A Alcoa conta ainda com a participação societária em quatro usinas hidrelétricas no País, cuja energia renovável é repassada à companhia. Em 2023, toda essa energia adquirida foi de fontes 100% renováveis, garantindo emissão zero no seu escopo 2.

“Além dos ganhos de eficiência operacional e maior competitividade no mercado, os benefícios envolvem a fabricação de produtos com baixa emissão de carbono. Um exemplo é a alumina EcoSource, produzida em Poços de Caldas e São Luís, que conta com metade das emissões quando comparada à média da indústria global”, declara Thaiza Bissacot, diretora de Meio Ambiente da Alcoa no Brasil.
A empresa implementou ainda diversas inovações tecnológicas para tornar a produção de alumínio mais eficiente e sustentável. Em Poços de Caldas, a Alcoa reduziu 30% das emissões ao substituir o uso de gás natural por energia elétrica na produção de vapor e implementou o filtro-prensa para diminuir a umidade dos resíduos de bauxita e eliminar a necessidade de novas barragens, reciclando a água recuperada no processo. Em São Luís, práticas de circularidade foram adotadas, como a recirculação de efluentes gerados pela Ambev, incorporando, aproximadamente, 800 mil m³ anuais ao processo produtivo em São Luís. Em Juruti, a transição para energia elétrica reduzirá cerca de 35% das emissões de CO2 no escopo 1.
Estratégias e práticas para reciclagem de alumínio também foram adotadas pela Alcoa, como o uso de 30% de sucata na produção de tarugos em Poços de Caldas e a linha global Sustana, que inclui o produto EcoDura com 50% de conteúdo reciclado. Essas práticas reduzem a necessidade de extração de matéria-prima, diminuem os insumos utilizados na produção de alumínio primário e estão alinhadas ao plano estratégico da Alcoa de reduzir as emissões de gases de efeito estufa. A reciclagem proporciona uma economia de energia de 95% em comparação à produção de alumínio primário e, para cada t de alumínio reciclado, há uma redução média de 16 t de emissões de GEE.
“O Brasil apresenta uma quantidade expressiva de reservas de bauxita, matéria-prima para a produção do alumínio, e um potencial enorme para a geração de energias renováveis. Dentro desse contexto, podemos adicionar empresas que colocam em prática um modelo de atuação responsável, com agendas ESG no centro das suas estratégias de negócios. O caminho é longo, mas serve de exemplo para que outros países também invistam em inovações com foco em transição energética, economia circular, gestão consciente de resíduos e geração de valor compartilhado com as comunidades”, considera Thaiza Bissacot.
CBA
Segundo Leandro Faria, gerente-geral de Sustentabilidade da Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), o uso de fontes elétricas renováveis sempre esteve presente no processo produtivo da CBA e faz da companhia uma referência no mercado global de alumínio com emissões de carbono 3,5 vezes menores que a média mundial de 11,3 tCO2e/t de alumínio.

A empresa é autossuficiente em bauxita, alumina e energia, garantindo custo competitivo e flexibilidade operacional. Sua energia é majoritariamente proveniente de 21 usinas hidrelétricas, com capacidade instalada de 1.634,3 MW, e dois complexos eólicos, com 171,6 MW. Com isso, a capacidade total de geração elétrica 100% renovável da CBA soma 7.824 GWh. E, quando necessário, a companhia também adquire energia extra no Sistema Interligado Nacional (SIN), assegurando sua rastreabilidade com Certificados de Energia Renovável (RECs).
Em junho de 2021, a CBA realizou um IPO (oferta pública de ações) e anunciou investimentos na modernização e expansão da produção, alinhados à sua Estratégia ESG 2030 de redução de 40% das emissões de CO2, com uma retração já alcançada de 26% em 2023. Além disso, a empresa iniciou um projeto de disposição de resíduos a seco, substituindo o processo úmido na sua principal barragem em Alumínio (SP), visando a aumentar a eficiência e a reutilização de recursos. Uma equipe também foi formada este ano para desenvolver projetos que agreguem valor aos resíduos, transformando-os em coprodutos.
“Na mineração, a CBA promove a extração sustentável da bauxita com reabilitação do solo e investimentos em tecnologias que reduzem o consumo e a pegada de CO2. Também tem modernizado suas salas-fornos e utilizado gás natural ou biomassa nas caldeiras da refinaria, diminuindo em mais de 60% as emissões de gases de efeito estufa.”
De acordo com Faria, a CBA adota várias estratégias de reciclagem de alumínio essenciais para sua competitividade, redução de emissões e promoção da economia circular. Dentro dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização Mundial das Nações Unidas (ONU) e da sua Estratégia ESG 2030, a empresa estabeleceu metas específicas para ampliar a reciclagem. Entre elas estão aumentar o conteúdo reciclado com a adição de sucata industrial e de obsolescência na Metalex em Araçariguama (SP) de 60% para 80% e expandir a reciclagem de alumínio com sucata industrial e pós-consumo na produção de tarugos na fábrica de Alumínio de 50% para 60%.
“Em 2022, a CBA inaugurou uma nova linha de tratamento de sucata na Metalex, aumentando a produção de tarugos de 75 mil para 90 mil t/ano, tornando-se um importante player na transformação de sucata de alumínio na América Latina. A empresa também abriu um centro de processamento e reciclagem em Araçariguama para facilitar a captação de sucata pós-consumo e reforçar práticas ESG”, destaca o gerente-geral de Sustentabilidade.
Segundo ele, as ações não param por aí. A aquisição da Alux, em 2022, ampliou a capacidade total de reciclagem da CBA para 298 mil t/ano. Este ano, estão trabalhando no Projeto ReAl, que separa e recicla alumínio e polímeros em embalagens multicamadas a partir de uma tecnologia desenvolvida e patenteada pela CBA.
Hydro
A Hydro também vem investindo em fontes de energia renovável em suas operações. A Hydro Rein, braço da empresa com foco em geração de energia renovável, tem três projetos em andamento no País.
O primeiro é a usina solar Boa Sorte, desenvolvida em parceria com a Atlas Renewable Energy, que, de 2025 a 2044, fornecerá energia limpa para a Albras, joint-venture entre a Hydro e a Nippon Amazon Aluminium Co. (NAAC), produtora de lingotes de alumínio. Desenvolvido em Paracatu (MG), o projeto terá capacidade total instalada de 438 MW e fornecerá anualmente 920 GWh de energia.

O segundo é a usina solar Mendubim, criada em parceria com a Scatec e a Equinor ASA, que iniciou operações em março deste ano em Assu (RN), com capacidade de 531 MW. Um PPA (Power Purchase Agreement ou, em português, Contrato de Compra de Energia) de vinte anos foi assinado com a refinaria Hydro Alunorte, em Barcarena (PA), que consumirá cerca de 60% da energia produzida.
Por último, o Ventos de São Zacarias é um projeto de energia eólica de 456 MW. “Prevista para os Estados do Piauí e Pernambuco, a obra será construída em um dos maiores clusters de parques eólicos da América Latina e atenderá a Hydro Paragominas e a Hydro Alunorte, ambas no Pará”, conta Anderson Baranov, CEO da Norsk Hydro Brasil.
A Hydro Alunorte também tem investido em diversas inovações tecnológicas para aumentar a eficiência e a sustentabilidade ambiental do processo de produção de alumínio, como a substituição do óleo combustível por gás natural, a instalação de caldeiras elétricas e a pesquisa para utilização de biomassa do caroço de açaí como combustível em parceria com a Faculdade de Engenharia Mecânica da Universidade Federal do Pará (UFPA). Com investimento de R$ 1,3 bilhão, essas iniciativas têm o intuito de reduzir as emissões de CO2 em 35%, contribuindo para a meta de um alumínio isento de emissões de carbono até 2050.
De acordo com Baranov, a empresa aposta também na reciclagem de alumínio por meio da marca Hydro Circal, que utiliza, no mínimo, 75% de sucata pós-consumo, o que reduz significativamente o uso de energia e a necessidade de produzir alumínio primário, aproveitando materiais de construções demolidas, recipientes de alimentos e até mesmo de veículos. Além disso, a empresa desenvolveu o Hydro Reduxa, uma série de alumínio de baixo carbono produzido com energias renováveis.
“A Hydro investiu R$ 30 milhões em iniciativas de economia circular, como a metodologia Tailing Dry Backfill na mina de bauxita em Paragominas, que é pioneira na indústria de mineração de bauxita no Brasil. Com a tecnologia, os rejeitos inertes da mineração são devolvidos às áreas já abertas e mineradas. Dessa forma, elimina-se a necessidade de novas barragens, beneficiando o meio ambiente e a segurança operacional”, destaca Anderson Baranov.
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