Você sabia que o alumínio das panelas, latinhas de bebida, fachadas de edifícios e até mesmo peças de carros pode ter vida após vida? Esse metal, tão presente no nosso dia a dia, é um camaleão da sustentabilidade, capaz de se transformar infinitas vezes sem perder seus benefícios e suas características.
Para celebrar esse círculo virtuoso, em 28 de outubro, comemoramos o Dia Nacional da Reciclagem do Alumínio, data criada em 2003 pela Associação Brasileira do Alumínio (ABAL). A iniciativa tem o objetivo de conscientizar a população sobre a importância da reciclagem do alumínio, um processo que coloca o Brasil como referência mundial, gerando economia de energia e água e, consequentemente, redução da emissão de gases de efeito estufa (GEE).

A importância da reciclagem
Segundo o International Aluminium Institute (IAI), 75% de todo o alumínio já produzido no planeta ainda está em uso, uma vez que é um dos materiais mais reciclados no mundo.
A sua reciclagem proporciona uma série de benefícios ambientais, como a conservação de recursos naturais, a redução do volume de resíduos sólidos destinados aos aterros sanitários, o aumento da vida útil desses aterros e a contribuição para uma transição energética justa.
Reciclar, no entanto, não contribui só para a preservação do meio ambiente, como também impulsiona a economia e promove a inclusão social. A atividade gera emprego e renda para mais de 800 mil pessoas no País, demonstrando seu impacto positivo na sociedade. Além disso, a cada tonelada de alumínio reciclado, economiza-se a extração de cerca de 5 t de bauxita e reduz-se em 95% o consumo de energia em comparação à produção primária.
É por esse motivo que, de acordo com a própria ABAL, não há sociedade moderna sem o alumínio e a reciclagem desse metal é crucial na busca de um futuro mais sustentável.
“O papel da reciclagem do alumínio para o País e para a indústria é de extrema importância. Uma das características que o tornam a principal escolha na transição para uma economia de baixo carbono consiste justamente na possibilidade de o metal ser infinitamente reciclável, sem perder suas características físicas e químicas. A reciclagem do alumínio brasileiro é um benchmark para o mundo”, comenta Janaina Donas, presidente-executiva da ABAL.
O Brasil sai na frente
Por falar em benchmark, o IAI prevê um futuro promissor para a reciclagem de alumínio, com a demanda global podendo quadruplicar até 2050, atingindo a marca de 80 milhões de t. E, nessa história, o Brasil já sai na frente, pois desde 1970 aumentou em 113 vezes o volume de alumínio reciclado, chegando a 904 mil t. Essa trajetória coloca o País em posição de destaque no cenário mundial.
Além disso, de acordo com a ABAL, atualmente, cerca de 60% do alumínio consumido no País provém de fontes recicladas, enquanto a média mundial gira em torno de 30%. O setor de latas de alumínio para bebidas é um exemplo ainda mais impressionante: há mais de quinze anos, o índice de reciclagem se mantém acima de 96%.
A seguir, inspire-se com as empresas da indústria que já adotam a reciclagem de alumínio em suas operações:
Superando desafios
A Alcoa tem investido em ações e tecnologias para ampliar a reciclagem de alumínio no Brasil. De acordo com Rodrigo Giannotti, diretor de Operações da Alcoa Poços de Caldas, o aumento da quantidade de refusão de sucata de alumínio na empresa tem sido uma oportunidade de alinhar critérios da economia circular com a redução de custos de produção, além de estar conforme o plano estratégico da empresa de diminuir as emissões de GEE, proporcionando uma economia de energia de 95% se comparada com a energia gasta na produção do alumínio primário.

“É importante reforçar que, para cada tonelada de alumínio reciclado, é possível reduzir, em média, 16 t de emissões de GEE. A reciclagem proporciona também a redução da quantidade de minério que é extraída da natureza e de insumos utilizados no processo produtivo do alumínio primário. Em resumo, a utilização da sucata de alumínio traz ganhos sociais, ambientais e econômicos para nossas operações”, aponta.
Giannotti explica, no entanto, que a reciclagem de alumínio em setores além das latas de bebidas ainda enfrenta alguns obstáculos específicos que exigem tecnologias e métodos próprios para a recuperação eficiente do material.
“Atualmente utilizamos cerca de 30% de sucata no processo produtivo da unidade de Poços, mas enfrentamos desafios para aumentar esse número, porque contamos com rígidos controles de qualidade dos materiais usados nos nossos processos, o que dificulta a contratação de múltiplos fornecedores”, lamenta.
A Alcoa tem trabalhado para superar esses desafios. A empresa possui um procedimento robusto de controle de recebimento e análise de composição química de todas as sucatas recebidas ou geradas internamente. Para isso, a sucata é separada fisicamente, conforme tipo e fornecedor, e a análise de composição química é realizada com um espectômetro manual. Esse controle torna possível um planejamento de produção otimizado, focado tanto no aumento do consumo de sucata como no cumprimento das especificações químicas do produto final.
E, ainda, novos fornecedores são desenvolvidos e testados de forma recorrente de acordo com uma ficha de especificação que engloba diversos parâmetros, como embalagem, dimensões e critérios ambientais e de segurança, além de composição química.
Giannotti chama a atenção, contudo, para a importância da colaboração entre os elos da cadeia produtiva. Segundo ele, a parceria entre fabricantes, consumidores, recicladores e governo é fundamental para aumentar as taxas de reciclagem e fortalecer a economia circular do alumínio no País.
Novas tecnologias
A Companhia Brasileira de Alumínio (CBA) investe em reciclagem há anos e considera essa área estratégica para o futuro do negócio, tanto que a colocou como um dos pilares da sua Estratégia ESG 2030. Para alcançar seus objetivos de sustentabilidade, a empresa definiu algumas metas ambiciosas a fim de aumentar o uso de materiais reciclados em seus processos produtivos: expandir para 80% o volume de reciclagem de alumínio na Metalex, subsidiária dedicada à transformação de sucata industrial e de obsolescência; aumentar para 50% o uso de sucata industrial e de obsolescência na produção de tarugos na sua unidade de Alumínio (SP); e intensificar a captação de sucata e o volume de reciclagem externa.
“A reciclagem é um pilar importante para a CBA, que tem como meta reduzir a emissão de carbono em 40% até 2030, considerando a cadeia de produção desde a mineração até a fundição. Nosso olhar está muito atento às oportunidades de aprimoramento de todas as etapas de reciclagem da companhia, desde a captação da sucata até as oportunidades de negócios relacionados, passando por parcerias estratégicas e desenvolvimento de tecnologias”, declara Roseli Milagres, diretora de Supply Chain e Compras da CBA.
A empresa destaca, como exemplos práticos, a implementação, em 2021, de um novo forno de fusão exclusivo para reciclagem na Metalex, chamado Sidewell, que aumentou a capacidade de produção da subsidiária de 75 mil t para 90 mil t anuais. Em 2024, foi instalada uma linha de tratamento de sucata na Metalex, com capacidade de processar 100 mil t por ano, permitindo elevar o volume de sucata nos tarugos de 60% para 80%. Além disso, foi criado o primeiro Centro de Processamento e Reciclagem da CBA, que capta sucata para todas as linhas de produção da empresa – incluindo tarugos –, para a Alux em Nova Odessa (SP) – que processa ligas automotivas, utensílios domésticos e materiais para construção civil – e para a sua unidade de Itapissuma (PE) – dedicada à produção de chapas e folhas.
Entre as inovações em reciclagem desenvolvidas e patenteadas pela CBA está a Tecnologia ReAl (Recycling Aluminium), que promete transformar o setor de embalagens. Ela foi criada para a reciclagem de embalagens multimateriais contendo alumínio em sua composição e propicia a separação do alumínio e do polímero presentes em embalagens flexíveis e cartonadas, utilizadas para alimentos, bebidas, cosméticos e outros produtos. O processo mantém as propriedades de ambos os materiais, possibilitando sua reutilização em novas embalagens.
“A CBA se prepara para oferecer a tecnologia ao mercado ainda este ano, promovendo ganhos ambientais, sociais e econômicos. Outro foco está na estratégia de captação multicanal, para aumentar a captura de sucata de diversas fontes e incrementar a produção de metal. A companhia pretende, até 2028, tornar-se referência brasileira em captação e processamento de sucata de alumínio, elevando o volume de sucata externa para 160 mil t”, afirma Roseli.
Reciclagem de latinhas
No último ano, a Novelis evitou a emissão de cerca de 3 milhões de t de CO₂ graças à reciclagem de alumínio. Além de seus processos produtivos, promove a reciclagem em grandes festividades no Brasil. Em 2024, em parceria com cooperativas, a empresa coletou e reciclou mais de 175 t de latinhas de alumínio em eventos, como os shows de Bruno Mars, o Rock in Rio, o Carnaval e as festas de São João.
Com o objetivo de fortalecer a cadeia de reciclagem de alumínio no Brasil, a Novelis opera quinze centros de coleta de sucata em todo o País. Essa rede aproxima a indústria dos elos iniciais da cadeia, facilitando o processo de coleta e garantindo o fornecimento de matéria-prima para reciclagem.
Nos centros de coleta, as latas passam por um processo de pesagem, higienização e prensagem antes de serem enviadas para o seu Complexo Integrado de Reciclagem e Laminação de Alumínio – um dos maiores do mundo –, localizado em Pindamonhangaba (SP). Com capacidade para reciclar 500 mil t de alumínio por ano e laminar 720 mil t, a fábrica de Pindamonhangaba produz chapas de alumínio com até 80% de conteúdo reciclado e a menor pegada de carbono do mercado, reforçando o comprometimento da empresa com o meio ambiente.
“Na Novelis, o nosso compromisso com a sustentabilidade se reflete em cada uma de nossas iniciativas, não se limitando apenas a números, mas se manifestando em ações concretas que promovem a economia circular. A reciclagem de alumínio é um pilar essencial em nossa estratégia, permitindo a redução significativa das emissões de carbono e o uso eficiente dos recursos naturais. Continuaremos a direcionar nossos esforços para desenvolver soluções inovadoras que fortaleçam nossa operação e garantam um impacto positivo no meio ambiente e na sociedade,” afirma Alfredo Veiga, vice-presidente de Metal da Novelis América do Sul.
Para impulsionar ainda mais o desenvolvimento do setor de reciclagem e apoiar os mais de oitocentos mil catadores e catadoras em todo o Brasil, a Novelis criou um movimento chamado de Liga da Reciclagem. Essa iniciativa almeja ampliar a conscientização sobre a importância da reciclagem e oferecer capacitação para profissionais da área, contribuindo para um futuro mais sustentável e socialmente justo.
Reciclagem infinita
Comprometida com a sustentabilidade, a Alcast tem investido em equipamentos de última geração para processar todo o alumínio residual de sua produção. Nada se perde: 100% do material é reciclado internamente.

“Pela infinita reciclagem do metal, estamos buscando estratégias, como a engenharia reversa, a fim de trazer mais alumínio para a nossa planta. Estamos adquirindo equipamentos de ponta e extremamente eficientes na operação de processamento do metal, além de contar com uma equipe técnica qualificada que estuda o processo de reciclagem”, declara a equipe técnica da empresa.
A Alcast vai além da reciclagem em suas próprias instalações. A empresa apoia ativamente todos os públicos envolvidos na cadeia de reciclagem do alumínio, promovendo um processo mais eficiente e sustentável. Essa rede de colaboração reforça a preocupação da Alcast com a causa ambiental.
Processo completo de reciclagem
O Grupo Recicla BR é uma empresa de reciclagem de metais não ferrosos que atua na América do Sul, gerenciando uma ampla gama de sucatas de alumínio, incluindo latas, perfis, blocos, chapas, cavacos, radiadores, estamparias e rodas. Com 24 centros de coleta em dezesseis Estados, a empresa processa cerca de 250 mil t de sucata de alumínio anualmente. Além do alumínio, o grupo também atua na coleta e no processamento de outros metais não ferrosos, como bronze, latão e chumbo.

De acordo com Fabio Mazzini, CEO da empresa, o Grupo Recicla utiliza tecnologias avançadas para otimizar a reciclagem de alumínio e garantir a qualidade do material reciclado, realizando processos eficientes de limpeza, trituração e preparação da sucata.
“As unidades industriais do Grupo Recicla seguem rigorosos padrões de qualidade, com processos e equipamentos que garantem a confiabilidade das sucatas utilizadas. Cada cliente ou aplicação final recebe uma composição específica de materiais que assegura propriedades desejadas, como maleabilidade, dureza e níveis adequados de metais adicionais. A qualidade do material reciclado é verificada por meio de análises de laboratórios e controles de processo, atestando que a produção esteja dentro das especificações definidas”, explica Mazzini.
A empresa mantém uma atuação completa na cadeia de reciclagem de alumínio, com vínculos em todos os elos da economia circular, incluindo coleta, tratamento e produção. Na coleta de sucata, conta com uma estrutura de captação que abrange catadores, cooperativas e empresas de sucata, além de recolher sucata industrial de grandes empresas. Após a coleta, o Grupo realiza o tratamento e a preparação da sucata para então produzir diversas ligas de alumínio, utilizadas em indústrias como a de embalagens, automotiva, de bens de consumo e siderúrgica. Essas ligas são transformadas em produtos para o consumidor final, fortalecendo o ciclo de reciclagem e promovendo a sustentabilidade na cadeia do alumínio.
“Concluímos, assim, o ciclo da reciclagem: coleta, fusão, aplicação e descarte, retornando infinitamente à reciclagem do alumínio. Praticamos a economia circular conectando todos os elos da cadeia. Além dos processos, atuamos com entidades de destaque no cenário nacional, como ABAL, ABREM e Recicla Latas, que mantêm contínuo suporte às comunidades de catadores, às cooperativas e aos pequenos sucateiros, oferecendo treinamentos e material de suporte à gestão”, conta o CEO.
Agora, o Grupo Recicla BR espera aumentar continuamente a participação da reciclagem na cadeia de suprimento, desenvolvendo novas aplicações e ligas que possam substituir o alumínio primário. Com isso, pretende contribuir para a preservação ambiental, reduzindo emissões, economizando energia e conservando os recursos naturais.
Reciclagem de anteligas de alumínio
A AMG Brasil está comprometida com a sustentabilidade e a eficiência em seus processos. Para isso, a empresa tem investido na reutilização de materiais, incorporando em sua produção tanto sucatas externas como sucatas fornecidas pelos clientes. Esse processo de reaproveitamento ocorre na produção de novas anteligas e exige um rigoroso controle de qualidade, para garantir que os produtos finais estejam em conformidade com as especificações dos clientes.
Edmar Castro, gerente-geral de Operação e Manutenção da Unidade de Materiais Especiais da empresa, destaca que o principal desafio na reutilização de sucatas reside na variabilidade da composição das ligas. A presença de elementos específicos em diferentes concentrações limita o uso de algumas sucatas em larga escala.
Para contornar essa limitação, Castro enfatiza a importância da coleta e segregação criteriosa das sucatas, separando-as por tipo de aplicação (como cabos elétricos, latinhas, esquadrias e motores). Essa prática possibilita que as sucatas sejam reaproveitadas na produção de novas anteligas destinadas às mesmas aplicações, minimizando a contaminação por elementos indesejados e otimizando o processo de reciclagem.
“Atualmente, a AMG está buscando formas rentáveis de realizar o processamento de borras oriundas do processo produtivo, pois essas borras contêm um percentual considerável de alumínio. A empresa também desenvolveu, nos últimos anos, a produção de fluxos fundentes, com o objetivo de melhorar a recuperação de alumínio nas empresas que fazem o processamento de sucatas e borras”, afirma Castro.
Em linha com as crescentes demandas por práticas ESG e redução da pegada de carbono, Edmar Castro observa que clientes da AMG têm exigido o uso de matéria-prima reciclada na produção. Alguns especificam a inclusão de sucata ou alumínio secundário, enquanto outros optam pelo processo de “conversão”, enviando sucata própria para ser transformada em novas ligas pela AMG.
Castro destaca a importância da colaboração entre recicladores e fabricantes para atender a essa demanda. Tal parceria garante produtos sustentáveis e com preços competitivos, beneficiando toda a cadeia produtiva e o consumidor final.
“É importante também difundir e incentivar o aumento do uso de materiais de alumínio, visto que ele possui uma capacidade de reciclagem superior em comparação a outros metais, devido ao seu baixo grau de oxidação e degradação durante a utilização, resultando em um menor custo de ciclo de vida final”, pontua.
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