A Associação Brasileira do Alumínio (ABAL), em parceria com o Acelerador de Transição Industrial (ITA – Industrial Transition Accelerator, em inglês), vem fomentando projetos de descarbonização na indústria brasileira de alumínio.
Lançado durante a 28ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP28) em Dubai, em dezembro de 2023, o ITA é uma iniciativa global que busca mobilizar investimentos em grande escala para a rápida implementação de soluções de descarbonização. O Brasil é o primeiro País a firmar acordo com o programa, reforçando seu compromisso com a agenda climática global.

Com o propósito de fortalecer essa iniciativa, a presidente-executiva da ABAL, Janaina Donas, foi convidada para integrar o Conselho Consultivo do ITA, lançado oficialmente no País em outubro, na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). A ABAL, que representa todos os elos da cadeia produtiva do alumínio no Brasil, terá papel fundamental na implementação do programa no País, colaborando na busca de soluções e tecnologias de baixo carbono para o setor.
“O alumínio é um insumo estratégico para o cumprimento dos objetivos de descarbonização de seus principais mercados consumidores. Além disso, nossas empresas seguem comprometidas com o desenvolvimento de melhorias contínuas em seus processos produtivos, garantindo o uso mais eficiente de recursos, promovendo a circularidade e empregando novas tecnologias para reduzir as emissões diretas e indiretas do setor”, afirma Janaina.
O ITA reúne líderes globais de todos os setores, instituições financeiras e governos, incluindo a Bloomberg Philanthropies, fundação filantrópica de Michael Bloomberg (empresário, político e filantropo americano) e a Presidência da COP28. No Brasil, conta ainda com o apoio do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC).
O Brasil larga na frente
O Acelerador de Transição Industrial escolheu o Brasil para iniciar a missão de descarbonizar a indústria global. Em entrevista exclusiva, Marc Farré Moutinho, responsável pelo ITA no País, explicou os critérios que levaram à indicação do Brasil como pioneiro no programa de apoio à indústria verde, bem como mostrou de que forma é possível aproveitar essa oportunidade para se tornar referência em produção sustentável, além de ressaltar a importância da união de forças entre governo, empresas e recursos naturais.
Segundo Moutinho, a seleção se deu por três fatores principais: a sólida base econômica do País, com abundância de recursos naturais e energia renovável, infraestrutura robusta e expertise industrial; o crescente interesse do setor privado em projetos industriais verdes, demonstrando a visão estratégica das empresas brasileiras; e o compromisso do governo com a agenda verde, exemplificado pela receptividade do MDIC à parceria com o ITA.
“Há um arcabouço político cada vez mais favorável à indústria verde no Brasil. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços foi muito receptivo ao ITA e sua parceria ofereceu uma chance de impacto positivo no País”, declara o líder do ITA.
Desafios e oportunidades
Moutinho ressaltou que o mundo enfrenta o desafio de descarbonizar diversos setores, incluindo o alumínio, que se destaca pelo alto consumo de energia na fundição. A eletricidade representa a maior parte das emissões do setor, criando uma grande oportunidade para o uso de fontes renováveis. No entanto, a intermitência dessas fontes, como solar e eólica, exige soluções com a finalidade de garantir o fornecimento constante de energia, essencial para a produção do alumínio.
Esse obstáculo, embora não seja exclusivo do alumínio, é intensificado pela escala de consumo energético do setor. Assim como a indústria do aço, o alumínio precisa de energia em grande volume, o que demanda estratégias inovadoras para integrar fontes renováveis sem comprometer a produção.
Moutinho aponta ainda como grande desafio a viabilidade econômica das tecnologias limpas, as quais custam mais caro que as tradicionais.
“Apesar dos avanços tecnológicos, a descarbonização da indústria ainda esbarra no alto custo das tecnologias limpas, que supera o de alternativas tradicionais. Para viabilizar a transição, é preciso tornar esses investimentos mais atrativos, o que depende tanto da estruturação de projetos inovadores pelas empresas como de fatores externos, como políticas públicas, demanda de mercado e financiamento adequado. A criação de um ecossistema favorável ao investimento verde, com infraestrutura e apoio da sociedade, é crucial para impulsionar a adoção de tecnologias limpas e alcançar uma indústria mais sustentável”, afirma.
É nesse cenário que o ITA entra, pois busca enfrentar esse problema e apoiar projetos, melhorando tais condições no Brasil e em todo o mundo. Porém, essa não é uma tarefa simples, ela requer a mobilização de uma ampla gama de stakeholders, incluindo indústria, governo, comunidades locais e instituições financeiras para se alinhar em soluções.
“O apoio de instituições como a Presidência da COP28, a Bloomberg Philanthropies e a ONU Mudança Climática é fundamental para o sucesso do ITA. Contar com a colaboração de um conselho de liderança e uma ampla rede internacional de parceiros fortalece a iniciativa, permitindo que o ITA mobilize os diferentes atores e promova a colaboração necessária para tornar a indústria verde mais atrativa aos investimentos”, considera Moutinho.
Projetos prioritários
O ITA busca acelerar a descarbonização da indústria do alumínio, concentrando-se em projetos com alto potencial de redução de emissões. Globalmente, o principal foco está na geração de energia para a fundição de alumínio. No entanto, no Brasil, o alumínio já apresenta uma intensidade de emissões significativamente inferior à média global, pois as fundições no País são alimentadas majoritariamente por hidroeletricidade de emissão zero. Por isso, o Acelerador, no contexto brasileiro, prioriza projetos voltados à redução das emissões no refino de alumina e nas emissões dos ânodos de fundição.
“Estamos entusiasmados com a perspectiva de projetos nessas áreas, pois eles podem ajudar o Brasil a produzir alumínio com emissões próximas de zero e posicionar o País como líder internacional em alumínio neutro para o clima”, declara o líder do ITA no Brasil.
Com o intuito de apoiar as empresas nesse processo, o Acelerador oferece:
Visibilidade e apoio na mobilização de stakeholders
Isso facilita a conexão com parceiros e investidores.
Demanda de mercado
Colaborar com clubes de compradores internacionais a fim de expressar o business case para a compra de alumínio brasileiro de baixa emissão aos mercados doméstico e internacional, bem como identificar potenciais compradores para fornecedores brasileiros.
Política industrial
Alavancar a parceria com o MDIC e o Brazil-UK Industrial Decarbonisation Hub (ID Hub) para fazer recomendações sobre políticas que possam apoiar projetos de descarbonização de alumínio de alta ambição no Brasil.
Financiamento
Colaborar com a Glasgow Financial Alliance for Net Zero (GFANZ), membro do nosso conselho de liderança, para mostrar projetos de descarbonização de alumínio de alta ambição no Brasil e identificar potenciais investidores.
De maneira geral, o ITA prioriza projetos de descarbonização em setores como alumínio, aviação, cimento, química e aço com grande escala de produção e alto potencial de redução de emissões, utilizando tecnologias inovadoras ainda não amplamente difundidas no Brasil. No entanto, vale destacar que, como o foco são projetos de grande porte, o ITA não fornece financiamento direto, mas atua na criação de condições favoráveis para que os projetos atraiam investimentos de terceiros.
Tendências
Marc Farré Moutinho acredita que a ambição do lado da oferta continuará a impulsionar a descarbonização do alumínio globalmente, à medida que empresas pioneiras do setor buscam reduzir proativamente suas emissões. O mesmo ocorre no lado da demanda, com compradores de alumínio visionários que continuarão abrindo mercados de destaque para o alumínio de baixa emissão.
Uma tendência emergente, no entanto, será crucial para acelerar esse progresso: a política de descarbonização. Um bom exemplo é o Mecanismo de Ajuste de Fronteira de Carbono da União Europeia (CBAM), que já começa a ter impacto, pois muitas indústrias ao redor do mundo, incluindo as do setor de alumínio, estão adotando medidas a fim de reduzir suas emissões e permanecer competitivas no mercado europeu.
“A política representa uma alavanca essencial para a descarbonização do alumínio, especialmente ao criar demanda por alumínio de baixa emissão. Esperamos que essa importância seja cada vez mais reconhecida pelos governos ao redor do mundo”, destaca Moutinho.
Mais informações: https://ita.missionpossiblepartnership.org/news/entry/ita-brazil-project-support-programme-brazil-uk-id-hub-call-for-expressions-of-interest-eoi/
Fotos: Bloomberg Philanthropies




