Em agosto, Janaina Donas, presidente-executiva da Associação Brasileira do Alumínio (ABAL), participou de uma entrevista no CNN Money para falar sobre as expectativas da indústria do alumínio em torno da viagem do vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, ao México. O político embarcou para o país no final do mês com o objetivo de fortalecer as relações comerciais e ampliar investimentos entre as duas nações.
Durante a entrevista, Janaina destacou que a iniciativa é positiva, já que o Brasil e o México juntos representam 60% do PIB da América Latina e possuem forte complementaridade econômica. Segundo ela, o México é hoje um grande importador líquido de produtos de alumínio, atendido em grande parte pelos Estados Unidos e pela China.
“O Brasil já ocupa o 3º lugar como fornecedor do México, mas o mercado mexicano ainda representa apenas a 8ª posição nas exportações brasileiras. Porém, quando a gente considera o volume importado pelo México e o fato de estarmos falando de produtos manufaturados, de maior valor agregado, inclusive de alumínio, o México é com certeza um país que poderia ajudar o setor brasileiro nesse esforço de diversificação da pauta de exportações”, declarou a presidente-executiva da ABAL.
No momento, o setor acompanha as movimentações do governo brasileiro, uma vez que existem instrumentos bilaterais e acordos comerciais em vigor entre os dois países, alguns deles paralisados. A expectativa é de que seja possível destravar as negociações para ampliar preferências tarifárias e avançar na integração das cadeias produtivas.
Tarifação americana
Janaina mencionou ainda que os setores do alumínio e do aço foram os primeiros a sentir o impacto da escalada tarifária iniciada pelos Estados Unidos. A executiva detalhou que, embora os produtos de alumínio já estivessem na sobretaxa da Seção 232, a lista recíproca dos EUA incluiu outros produtos que não estavam no rol original, como a bauxita e a sucata. Contudo, ela explicou que a preocupação do setor não se limita apenas ao impacto direto na balança comercial brasileira, mas também aos efeitos colaterais, como o desvio de comércio e o agravamento de disputas no mercado internacional.
“Nós já mensuramos aí um impacto de mais de US$ 1,3 milhão na nossa pauta. É por essa razão que a missão do vice-presidente Alckmin é tão importante, pois o México representa um mercado potencial de US$ 10,2 bilhões apenas em produtos de alumínio que nós poderíamos adquirir”, destacou.
Entre as outras preocupações do setor, a executiva fez questão de enfatizar o aumento das exportações de sucata. Ela explicou que a sobretaxa americana eleva o preço do alumínio primário, tornando a sucata ainda mais estratégica para o processo de descarbonização. No entanto, se o Brasil exporta grandes volumes de sucata, pode ocorrer desequilíbrio no abastecimento interno do mercado, gerando escassez para a indústria nacional.
Cenário de reestruturação
Em relação à possibilidade de reversão da Seção 232, a executiva da ABAL afirmou que a entidade tem sido “bastante pragmática” sobre o assunto, pois, embora a realidade possa eventualmente se curvar às necessidades dos consumidores e das indústrias, a reversão ainda está longe desse cenário. E, segundo ela, o que os Estados Unidos estão fazendo em relação a isso é exatamente tentar resgatar a sua indústria nacional diante de uma ameaça global e de práticas de comércio desleais, o que também é uma realidade vivida pelo Brasil.
“Se a gente levar isso em consideração, a despeito de essa medida estar calibrada ou não, se ela vai cumprir com seu objetivo, isso a gente não consegue dizer neste momento. O que podemos afirmar é que o Brasil conseguiu, a partir de 2022, alcançar a autossuficiência no suprimento de alumínio, graças a uma matriz de ativos estratégicos que envolve a produção primária, religada de forma escalonada desde então. Ou seja, é isso que os Estados Unidos buscam alcançar, e o Brasil saiu na frente por uma conjunção de fatores, incluindo uma matriz elétrica limpa e diversificada, além de outros ativos na cadeia de valor que permitem ter uma produção verticalizada e menos dependente de importações”, explicou.
Na avaliação da executiva, esse esforço recente precisa ser preservado para evitar que movimentos especulativos prejudiquem a indústria nacional.
Questionada sobre o plano de contingência anunciado pelo governo federal, Janaina avaliou que uma tarifa de 50% inviabiliza qualquer competitividade nas exportações para os Estados Unidos. Contudo, o conjunto de medidas apresentado pode beneficiar empresas mais focadas em exportação, mas seus impactos variam conforme a estratégia de cada companhia. No caso do alumínio, há maior diversificação de mercados, mas a preocupação central está no fortalecimento da defesa comercial e em medidas específicas para garantir o aproveitamento interno da sucata.
“Esse insumo tem se tornado cada vez mais estratégico para a industrialização verde. Se não tivermos mecanismos de controle e rastreabilidade, corremos o risco de perder essa vantagem competitiva, desequilibrar o abastecimento interno e depois ser obrigados a comprar um insumo que é essencial para a nossa indústria.”
Imagem: reprodução CNN Money




