A crescente disputa internacional por sucata de alumínio pode comprometer os avanços da reciclagem no Brasil. O alerta é de Janaina Donas, presidente-executiva da Associação Brasileira do Alumínio (ABAL), em entrevista publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo no dia 27 de outubro. Segundo a executiva, só em 2024 o Brasil reciclou 645 mil t de alumínio, embora tenha capacidade para mais de 1 milhão. Contudo, o risco é que o Brasil, recém-autossuficiente, volte a perder competitividade se continuar exportando esse insumo estratégico.
De acordo com a presidente da ABAL, o alumínio reciclado é a forma mais rápida e sustentável de ampliar a oferta global do metal, já que a produção primária demanda altos investimentos, energia barata e matérias-primas como bauxita e alumina — áreas em que o Brasil tem forte presença. No entanto, a curto prazo, cresce a disputa internacional pela sucata. Países asiáticos, especialmente a China, vêm reduzindo a produção baseada em carvão e intensificando as importações de material reciclável para avançar na transição energética. Os chineses, que há duas décadas lideravam a produção primária, agora investem pesadamente em reciclagem e já alcançam a capacidade de 22 milhões de t.
“Quem ganha são apenas os intermediários, enquanto o Brasil perde sua vantagem competitiva de ter um alumínio verde, com alta taxa de reciclagem e baixa pegada de carbono. Exportar sucata é enviar embora um insumo estratégico essencial para a reindustrialização verde, que, depois, retorna como produto acabado competindo com a indústria nacional”, aponta Janaina.
Mais de vinte países já implementaram medidas para restringir a exportação de sucata — seja por meio de proibições, sobretaxas ou priorização da indústria local. Janaina defende não uma proibição total, mas uma política estratégica para proteger nosso parque industrial e garantir segurança de abastecimento.
Desafios
O Brasil possui uma intensidade carbônica 3,3 vezes menor que a da média global, mas ainda enfrenta desafios para substituir combustíveis fósseis nas refinarias e adotar novas tecnologias. A biomassa — como cavacos de eucalipto e resíduos do açaí — já vem sendo utilizada para reduzir emissões, mas outras soluções seguem em desenvolvimento, como o uso de ânodos inertes, a captura de carbono e o aprimoramento da rastreabilidade do alumínio, fator essencial para conquistar mercados que valorizam o chamado “alumínio verde”.
A rastreabilidade, além de garantir transparência sobre a origem e o conteúdo reciclado do metal, é uma ferramenta estratégica para fortalecer a competitividade do setor. O País já registra avanços nessa área, embora ainda haja lacunas, sobretudo na gestão da sucata. Janaina destaca o trabalho da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), que criou um sistema pioneiro de rastreabilidade — inicialmente voltado ao plástico e agora estendido ao alumínio. Segundo ela, o projeto é fundamental para integrar políticas públicas, como o programa Mover, que estimula o uso de materiais reciclados na indústria automotiva.
“Outra frente essencial são a formalização e o financiamento da cadeia de reciclagem, garantindo escala e inclusão dos catadores. Além disso, é necessário ampliar a circularidade, com uso mais eficiente de recursos como água e energia”, afirma Janaina.
Alumínio e descarbonização
O alumínio é considerado um material essencial para a descarbonização global, com ampla aplicação em setores como embalagens, transportes, construção civil, bens de consumo, infraestrutura e energia elétrica. De acordo com a ABAL, a demanda mundial nesses segmentos deve crescer de 40% a 55% até 2030. Nesse contexto, o alumínio produzido no Brasil — com 90% de energia renovável — se sobressai por ter uma das menores pegadas de carbono do mundo, resultado de uma matriz energética limpa e de escolhas estratégicas feitas ao longo dos anos.
Vale ressaltar que o Brasil é referência global na reciclagem de latas de alumínio, com índices acima de 95% há mais de quinze anos. Cerca de 60% do alumínio consumido no País vem da reciclagem, contra 33% na média mundial. Esse sucesso, segundo a presidente da ABAL, resulta de investimentos pioneiros desde os anos 1990, de políticas públicas de coleta e logística reversa e do papel social dos catadores. E mais: a reciclagem consome 95% menos energia do que a produção primária, reduzindo drasticamente as emissões.
A executiva vê ainda a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30), que será realizada em Belém (PA), como uma vitrine para o setor mostrar ao mundo que o alumínio brasileiro é um dos mais sustentáveis.
“É uma oportunidade para demonstrar que o Brasil tem um dos alumínios mais sustentáveis do mundo — com baixa pegada de carbono, alto índice de reciclagem e uma cadeia circular que gera benefícios ambientais e sociais. O setor quer destacar que o alumínio é parte da solução para a descarbonização global e que o País pode se consolidar como potência em reciclagem e reindustrialização verde, com protagonismo na transição energética.
Confira a entrevista na íntegra:
https://www.estadao.com.br/economia/era-do-clima-cop-30-entrevista-presidente-abal-aluminio/
Imagem: Reprodução Jornal O Estado de S. Paulo




