Janaina Donas, presidente-executiva da Associação Brasileira do Alumínio (ABAL), falou ao portal Estadão no dia 6 de dezembro, sobre os desafios e as oportunidades que se apresentam para a indústria do alumínio, tanto no Brasil como no mundo.
A dirigente da ABAL ressaltou a importância da transição energética e da descarbonização na agenda global e como o alumínio se posiciona como um material crítico nesse processo. Segundo ela, a demanda global por alumínio deve crescer 40% até 2030. A executiva questionou, porém, o quanto o consumidor está disposto a pagar por um produto “verde”, apontando que essa percepção de valor ainda precisa ser mais bem desenvolvida no mercado brasileiro, em comparação aos mercados mais maduros.
No Brasil, o consumo per capita do metal, de 7,3 kg ao ano, é inferior ao da média global, demonstrando um grande potencial de crescimento, tanto no mercado interno como nas exportações. Os setores de Energia, Bens de Consumo e Construção despontam como apostas para diversificação da demanda, além do tradicional mercado de Embalagens.
Mobilidade, energia e competitividade
A presidente da ABAL destacou ainda o potencial do alumínio na eletrificação dos carros, mas frisou que o Brasil ainda não se beneficia disso devido à importação maciça de veículos elétricos prontos, principalmente da China. Contudo, pontuou os diferenciais do alumínio brasileiro.
“Temos diferencial. O Brasil usa mais de 90% de energia renovável, gera três vezes menos emissões de carbono na produção de metal e quase 50% da matéria-prima que usa é alumínio reciclado”, destacou.
O custo da energia segue como um dos maiores desafios do setor no Brasil. A autogeração tem sido crucial para garantir a competitividade e viabilizar retomadas de produção das empresas no setor.
Barreiras comerciais
Como pontos de preocupação, a executiva citou as barreiras que o produto nacional encontra no exterior, como o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM), da União Europeia, e a Seção 232, dos Estados Unidos, os quais ameaçam as exportações brasileiras.
Embora o Brasil seja reconhecido por sua produção com baixa intensidade carbônica, há necessidade de maior isonomia nas regras para produtos importados e exportados.
“Vamos ter todo esse esforço de descarbonização nos dando uma vantagem competitiva. É preciso garantir que o produto que vem importado para o Brasil obedeça aos mesmos critérios de descarbonização. Para exportar para a Europa, por exemplo, nessas regras, não consideravam que alumínio reciclado entrasse como um “alumínio verde”. Preocupam essas novas barreiras comerciais travestidas de barreiras vinculadas à questão ambiental”, afirmou.
Alumínio verde
De acordo com Janaina, o Brasil, com sua matriz energética renovável e seu alto índice de reciclagem, tem potencial para ser reconhecido como produtor de alumínio verde. No entanto, para se destacar na competição internacional e obter vantagens, é crucial a rastreabilidade de toda a cadeia produtiva, comprovando a origem sustentável do alumínio.
Existem iniciativas que certificam o alumínio verde, como a Aluminum Stewardship Initiative (ASI), que atende a demanda de grandes empresas, como Apple e BMW, dispostas a pagar mais por um produto com selo verde. O governo brasileiro também lançou o programa Selo Verde para identificar produtos sustentáveis, incluindo o alumínio.
O desafio agora, no entanto, é conscientizar o mercado sobre o valor do alumínio verde e incentivar a rastreabilidade em toda a cadeia produtiva, para que o Brasil possa aproveitar essa oportunidade e se consolidar como um fornecedor de alumínio sustentável no mercado global.
Investimentos e perspectivas
A indústria brasileira de alumínio utiliza a maior parte da bauxita extraída no País (80% a 90%) para produção interna, diferentemente de outras cadeias minerais, que exportam a matéria-prima bruta. Embora o Brasil exporte o excedente de bauxita, o foco está na exportação de alumina, produto de maior valor agregado.
“A retomada da produção de alumínio primário visa ao atendimento do nosso mercado consumidor. Porém, eventualmente, parte dessa produção pode ser destinada à exportação. Mas a aposta é fortalecer o mercado brasileiro”, considera Janaina.
O setor de Embalagens, em especial as latas de bebidas, é o que mais demanda alumínio no País. As latas são infinitamente recicláveis e retornam ao mercado em cerca de sessenta dias.
Com um programa de investimentos de R$ 30 bilhões até 2025, o setor de alumínio busca ampliar a capacidade produtiva, desenvolver novas tecnologias de descarbonização e expandir operações mineradoras.
Segundo Janaina, um novo ciclo de investimentos também deve ser anunciado pelo mercado de alumínio brasileiro para o período de 2026 a 2030. O setor provavelmente investirá em aumento da produção, tecnologias para descarbonização, transição energética e expansão de minas.
Vários projetos de mineração também estão em fase de planejamento, aguardando a obtenção das licenças necessárias para iniciar a operação. O setor também avaliará as condições do mercado antes de investir na construção de novos smelters. E com a retomada total da Alumar em 2023 (fábrica da Alcoa e South32 no Maranhão, paralisada desde 2014), a produção de alumínio primário no Brasil deve aumentar significativamente nos próximos anos, atingindo 1,48 milhão de t.
“A prioridade do setor é garantir que a produção de alumínio interna atenda à demanda do Brasil, mas o setor poderá exportar o excedente de produção para complementar a demanda”, destaca Janaina.
Já a reforma tributária trouxe avanços para o setor do alumínio, com a promessa de reduzir a carga tributária média de 30-35% para 28%, simplificando o sistema e desonerando investimentos. No entanto, na avaliação da presidente-executiva da ABAL, a reforma ainda não resolve a disparidade em relação aos produtos importados, que pagam de 15% a 20% de tarifa. Para garantir a isonomia competitiva, ela defende um conjunto de ações, incluindo o fortalecimento dos mecanismos de defesa comercial e a revisão das políticas comercial e tarifária.
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Foto: Tiago Queiroz/Estadão/Divulgação ABAL




