De acordo com um dos últimos relatórios da Ember Energy (organização independente de pesquisa energética), o Brasil é hoje um dos líderes em eletricidade renovável entre os países do G20 (grupo formado pelas maiores economias do mundo), gerando 89% de sua energia a partir de fontes limpas. Esse índice, três vezes superior ao da média global de 30%, garante às indústrias nacionais — com destaque para a de alumínio — uma vantagem competitiva estratégica na corrida mundial pela descarbonização.
Essa liderança internacional se reflete diretamente no dia a dia das fábricas brasileiras. Segundo o Balanço Energético Nacional 2025 (BEN) divulgado pelo Ministério de Minas e Energia (MME) e pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), as fontes renováveis já representam 64,4% de toda a energia consumida pela indústria brasileira. Especificamente no uso de eletricidade, 88,2% da energia que move as máquinas é de origem limpa. Esse suporte energético sustentável tem sido o combustível para o crescimento de setores essenciais, como o de metais não ferrosos — que inclui a produção de alumínio —, registrando uma alta de 3,2% no consumo de energia em 2024.
Nesse contexto, o alumínio ganha protagonismo como material-chave para a descarbonização global, com aplicações em embalagens, transportes, construção civil, infraestrutura, bens de consumo e sistemas de energia. De acordo com a Associação Brasileira do Alumínio (ABAL), a demanda mundial pelo metal deve crescer de 40% a 55% até 2030. Produzido no Brasil com cerca de 90% de energia renovável, o alumínio nacional apresenta uma das menores pegadas de carbono do mundo.
“O Brasil conseguiu, a partir de 2022, alcançar a autossuficiência no suprimento de alumínio. O País saiu na frente por uma conjunção de fatores, incluindo uma matriz elétrica limpa e diversificada, além de outros ativos na cadeia de valor que permitem ter uma produção verticalizada e menos dependente de importações”, afirma Janaina Donas, presidente-executiva da ABAL.
Autogeração
A Companhia Brasileira de Alumínio (CBA) utiliza a matriz elétrica renovável do País como um dos principais pilares para posicionar o alumínio brasileiro como um produto de baixo carbono no mercado global. Intensiva em energia, a produção do metal exige fontes estáveis, competitivas e limpas — fator que levou a empresa a adotar, desde sua fundação, há setenta anos, um modelo de integração vertical baseado na autoprodução de energia e na autossuficiência em bauxita e alumínio.

Atualmente, a CBA conta com capacidade instalada de autogeração suficiente para abastecer toda a sua operação, por meio de 21 hidrelétricas e dois complexos eólicos próprios, localizados no Piauí e em Pernambuco, que somam 1,6 GW. Como parte de sua estratégia ESG (ambiental, social e de governança), a companhia vem diversificando a matriz energética para ampliar a resiliência e a competitividade do portfólio. Em 2025, firmou dois novos acordos para aquisição de participação em ativos de autoprodução eólica, garantindo o fornecimento adicional de 115 MW de energia. Um deles já foi concluído, com a compra de parte dos ativos do Complexo Serra do Tigre, no Rio Grande do Norte, pertencente à Casa dos Ventos, com contrato de quinze anos a partir de 2025. O segundo acordo, firmado com a Auren Energia, ainda aguarda o cumprimento de algumas condições precedentes de mercado.
“Esse movimento reforça a autonomia e a resiliência energética da CBA e representa um avanço na diversificação de fontes limpas. A adoção de uma matriz 100% renovável é um dos fatores determinantes para que a CBA seja referência global na oferta de alumínio de baixo carbono. Nossas emissões estão cerca de quatro vezes abaixo da média mundial na etapa de eletrólise (são 2,87 t de CO2e por t de alumínio líquido primário produzido, enquanto a média mundial é 11,2 t, segundo o International Aluminum Institute)”, afirma Rogério Pereira Jorge, diretor do Negócio Energia e Supply Chain da CBA.
Mesmo com esses resultados, a companhia mantém investimentos contínuos para avançar em sua agenda climática. A meta é reduzir em 40% as emissões até 2030, em relação a 2019 — patamar do qual já alcançou uma redução de 33%. Além da estratégia energética, a empresa atua na modernização do processo produtivo, na substituição de fontes fósseis e na ampliação da circularidade. Entre as iniciativas está a troca de óleo combustível e gás natural por biomassa nas caldeiras da Refinaria de Alumina, o que diminuiu mais de 60% das emissões nesse estágio desde 2020. A empresa também vem modernizando gradualmente as Salas Fornos, etapa da produção do alumínio líquido, com a migração para sistemas automáticos de alimentação das cubas. Essa atualização tecnológica deve viabilizar uma redução de até 20% das emissões nessa fase, além de maior eficiência energética e menor consumo de água.
Estratégia integrada
A Norsk Hydro Brasil segue caminho semelhante. Segundo Anderson Baranov, CEO da companhia no País, as operações no Pará já utilizam um percentual de 87% a 90% de energia renovável, resultado de uma estratégia integrada de descarbonização que soma R$ 12,6 bilhões em investimentos desde 2022.
No campo tecnológico, a empresa tem avançado na substituição de combustíveis fósseis e na ampliação do uso de fontes limpas. Na Alunorte, foram instaladas caldeiras elétricas e convertidos treze equipamentos para uso de gás natural, evitando a emissão de até 1,4 milhão de t de CO₂ por ano. A Hydro Rein complementa essa estratégia com projetos próprios de geração solar e eólica.
Outra inovação relevante é o uso de biomassa de caroço de açaí como combustível renovável. Em 2025, a Alunorte consumiu 125 mil t do resíduo — volume dez vezes maior que o registrado em 2023. Cada caldeira adaptada para biomassa pode reduzir cerca de 400 mil t de CO₂ ao ano, contribuindo para a meta da Hydro de alcançar a neutralidade de carbono até 2050.
Esse compromisso se estende por toda a cadeia produtiva. Na Mineração Paragominas, a empresa atua na reabilitação de áreas e preservação da biodiversidade, enquanto na refinaria Alunorte, em Barcarena (PA), promove a substituição do óleo combustível por gás natural.
“Tudo isso resulta em emissões quatro vezes menores que a média global da indústria do alumínio, colocando a Hydro como referência para o setor. Com essas ações, estamos no caminho para reduzir 30% das emissões até 2030 e alcançar emissão líquida zero até 2050, ou antes”, aponta Baranov.
Cadeia do alumínio
Além das produtoras primárias, a cadeia do alumínio também avança. A Ball Corporation, fabricante de embalagens, atingiu, no Brasil, a meta de operar com 100% de energia renovável anos antes do prazo previsto para 2030. A empresa otimizou o uso de ar comprimido nas suas fábricas por meio do reposicionamento de válvulas de escape, resultando em uma redução de até 60% no consumo e evitando o gasto de mais de 6 mil MWh de eletricidade por ano.
O avanço do alumínio de baixo carbono ocorre em um momento de forte expansão dos investimentos globais em energia. De acordo com o relatório World Energy Investment 2025, da Agência Internacional de Energia (AIE), os aportes no setor devem superar US$ 3,3 trilhões neste ano, sendo US$ 2,2 trilhões destinados a fontes limpas, com destaque para a energia solar. Esse movimento reforça a tendência de que a origem da eletricidade se torne um critério decisivo de compra.
“Acreditamos que o consumidor — tanto o industrial como o final — cada vez mais vai optar por soluções sustentáveis, e a origem da energia utilizada na produção é um fator decisivo na redução das emissões na indústria do alumínio”, afirma Rogério Pereira Jorge.
Baranov, da Hydro, corrobora a opinião de Rogério, da CBA, e afirma ser irreversível esse movimento do mercado.
“A eletricidade limpa é a base da descarbonização industrial. Ao investir em energia renovável e inovação, respondemos a essa demanda. Isso não é apenas um diferencial, mas uma exigência do mercado. Por esse motivo, oferecemos uma cadeia de valor mais transparente e rastreável, garantindo ao consumidor que nosso alumínio é de baixo carbono e produzido de forma responsável no Brasil.”
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