A O.S. Reciclagem vem se tornando um nome de destaque no Amazonas. A empresa, especializada em coleta e processamento de recicláveis, principalmente o alumínio, é um exemplo de como é possível unir preservação ambiental, geração de renda e inclusão social. À frente da empresa está Maria Zuleide Cruz Lima, conhecida como Zuleide Cruz, indígena, mãe de duas filhas e funcionária pública. Ao lado Osmar Santos, seu marido, ela construiu este projeto: começou no quintal de casa e hoje movimenta toneladas de materiais recicláveis pelos rios da região.

A trajetória teve início em 2012, quando Zuleide conheceu Osmar, que já tinha experiência com reciclagem. No início, trabalhavam apenas com alumínio e outros metais. Seis anos depois, passaram a incluir ferro, papelão e plástico. O crescimento foi tanto que, em 2021, foi necessário alugar um galpão e formalizar a empresa, nascendo assim a O.S. Reciclagem.

“Passamos a divulgar na rádio e logo as pessoas que moravam nos interiores da Amazônia começaram a trazer material para nós. Porém, para alcançar os municípios acessíveis apenas por rios — como Anamã, Codajás, Anori, Caapiranga e Beruri —, além de várias comunidades ribeirinhas e vilas, vimos a necessidade de investir na compra de um barco”, explica Zuleide.
Atualmente, a O.S. transporta de 15 a 30 t de materiais por viagem, integrando diversas comunidades ribeirinhas à cadeia de reciclagem.
Geração de renda e inclusão

Mais que resíduos, os recicláveis representam complemento de renda para muitas famílias ribeirinhas que vivem do extrativismo — do açaí, da castanha, do cupuaçu e do cacau. No entanto, a logística é desafiadora — cada município conta com dois a cinco compradores locais, os quais recebem adiantamentos e acumulam o material até a coleta.
“Tenho orgulho de dizer que sou uma das poucas — talvez a única — mulheres indígenas do Amazonas a desenvolver esse tipo de trabalho de reciclagem em larga escala. Acredito que isso mostra não apenas resistência, mas também que a reciclagem pode ser uma ferramenta de transformação social e cultural”, pontua Zuleide.
O alumínio tem papel central nessa cadeia, pois tem maior valor comercial, é encontrado em abundância e não se degrada facilmente na natureza. Em cada município, a empresa recolhe de 2 a 3 t do metal por mês, além de ferro, cobre, baterias, blocos, plásticos e papelão. Porém, são muitos os desafios. O barco pequeno não comporta toda a carga, dificultando o transporte. De acordo com Zuleide, seria necessário trocar o barco por uma balsa e investir em uma prensa para reduzir o volume do material. Contudo, precisariam de apoio institucional, o que ainda é escasso.

Parcerias
A inovação também faz parte da rotina da O.S. Reciclagem. A empresa lançou recentemente o projeto Moeda Verde, iniciativa que visa à troca de recicláveis por mudas nativas da região, como açaí e castanheira, incentivando o reflorestamento e a valorização da floresta em pé. E ainda está formalizando uma cooperativa de catadores para ampliar a atuação na logística reversa.
“Com isso, pretendemos aumentar o acesso a apoios institucionais. Já temos parcerias importantes, como a Tetra Pak Brasil e a Associação Brasileira de Bebidas (Abrabe), que nos apoiam no recolhimento de vidro”, conta Zuleide.
Preservação da Amazônia
Além da coleta e do processamento de materiais, a empresa desenvolve ações de educação ambiental em escolas da região, muitas vezes sem infraestrutura básica como Internet ou computadores. Também atua no desmonte de balsas afundadas e sucatas ferrosas, antes descartadas em rios e lixões, contribuindo para a preservação da Amazônia.
“É um trabalho que exige coragem, porque enfrentamos cheias, secas, tempestades e até piratas no rio. Mas nossa missão vai muito além da coleta. Queremos transformar vidas por meio da reciclagem e da floresta”, ressalta Zuleide.
Fotos: Divulgação O.S. Reciclagem




