O Lago Batata, localizado em Oriximiná (PA), foi palco de um capítulo inspirador na história da mineração sustentável. Passados 35 anos de deposição de rejeito de bauxita, a Mineração Rio do Norte (MRN), com ajuda da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), conseguiu reverter os impactos ambientais na região, recuperando 120 ha de mata de igapó degradada, área equivalente a 111 campos de futebol. O projeto Caminhos para a restauração de lago amazônico destaca-se não apenas pela revitalização do espaço, mas também pelo registro de 171 espécies de peixes impactadas na região e pelo plantio de mais de 800 mil mudas de espécies nativas.
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A história da reabilitação do ecossistema comprova que é possível conciliar a atividade mineradora com a preservação do meio ambiente, demonstrando que a mineração sustentável, alinhada às melhores práticas ambientais, é um objetivo tangível. O portal Revista Alumínio entrevistou Vladimir Senra Oliveira, diretor de Sustentabilidade e Jurídico da MRN. Os desafios enfrentados, as soluções inovadoras implementadas e os resultados surpreendentes alcançados na reabilitação do Lago Batata você confere abaixo.

Revista Alumínio — Quais indicadores apontam a restauração do ecossistema, resultado desses 35 anos de pesquisa, nas áreas impactadas do lago?
Vladimir — Os principais indicadores revelam que o Lago Batata tem muita vida, comprovando os bons resultados obtidos até agora. Restauramos 120 ha de mata de igapó, onde as espécies plantadas já florescem e frutificam, atraindo insetos, répteis e pássaros. A pesca também se recuperou, com o registro de 171 espécies de peixes na localidade. Além disso, o rejeito compactado no fundo do lago passou a acumular matéria orgânica e microrganismos, contribuindo para a alimentação dos peixes e a redução da turbidez da água. Em 2023, a turbidez média foi de 8,53 NTU, muito abaixo do limite de 100 NTU estabelecido pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama).
Por que só depois de 35 anos a MRN decidiu falar a respeito do que foi feito para restaurar a área do lago impactada pelo rejeito de bauxita?
Sempre pautamos nossas atividades com total transparência, informando sobre os impactos no lago, os trabalhos de recuperação e os resultados alcançados ao longo dos últimos 35 anos. Entretanto, essa é a primeira vez que reunimos e divulgamos de forma consolidada nossos esforços, aliando o conhecimento tradicional local ao científico. Com isso, reafirmamos nosso compromisso com a transparência, esclarecemos dúvidas, combatemos desinformações e ampliamos a prestação de contas à sociedade. Nosso trabalho, reconhecido pela comunidade científica, mostra que é viável conciliar mineração e desenvolvimento sustentável na Amazônia, seguindo os valores que norteiam as nossas ações: sustentabilidade, integridade, transparência e respeito aos direitos humanos.

Quais foram as medidas adotadas para mitigar os impactos que mudaram a paisagem do lago e interferiram no dia a dia das comunidades que vivem no entorno dele?
Desde 1989, quando interrompemos o lançamento de rejeito no lago, iniciamos um programa de estudos e monitoramento para sua restauração ecológica. Além disso, realizamos o plantio de árvores e instalamos barreiras para estimular a regeneração natural da mata de igapó, o que ajudou a formar matéria orgânica sobre o rejeito e reduzir a turbidez da água. Também passamos a ajudar as famílias afetadas. Atualmente, 112 famílias das comunidades Bom Jesus e Boa Esperança participam de nossos programas socioambientais, que incluem apoio à agricultura familiar, educação básica, capacitação profissional, acesso à água potável e prevenção à malária.
Houve impacto do rejeito na qualidade da água?
Não houve contaminação pelo rejeito e esse é um dos mitos que os resultados desse trabalho podem desvendar. Os pesquisadores da UFRJ fizeram uma análise rigorosa logo no início dos estudos e constataram que o rejeito de bauxita não continha substâncias químicas. Isso porque ele é composto somente de água e diferentes tipos de argila — não há qualquer adição de produtos químicos.
Se o rejeito é atóxico, como explicar os danos causados à vegetação nas margens do lago?
Os pesquisadores da UFRJ investigaram o que causou danos à vegetação na região impactada, que corresponde a 30% da área total do lago, e constataram que não havia relação com efeitos tóxicos. O que afetou a vegetação foi a formação de uma camada de rejeito sobre o solo natural, impedindo que as raízes das plantas respirassem, provocando a morte de espécies. Hoje, grande parte dessa área já está restaurada, com vegetação produzindo flores e frutos. Continuamos trabalhando para transformar as características do rejeito, que já possui camada de matéria orgânica adicionada, importante para nutrir microrganismos essenciais ao ecossistema.
Como a comunidade científica, nacional e internacional, tem se manifestado sobre o resultado das pesquisas?
O trabalho realizado para restaurar o Lago Batata é considerado referência porque não existia trabalho científico sobre processos de restauração de lagos com suas características: um lago amazônico com ecossistema heterogêneo e grande diversidade de vegetação. Por se tratar de um mosaico de ecossistemas, o trabalho desses 35 anos é tema de 99 publicações científicas nacionais e internacionais, as quais abordam os desafios e o sucesso das intervenções e do trabalho de monitoramento.
Com base no monitoramento que a MRN afirma realizar no Lago Batata, como classifica atualmente a qualidade da água?
Os indicadores mostram boas condições ecológicas da água ali. Nosso monitoramento é baseado na limnologia, que estuda ecossistemas de águas doces. Essa ciência avalia fatores como turbidez e presença de microrganismos que auxiliam na oxigenação e compõem a base da cadeia alimentar aquática. Também analisamos organismos responsáveis pela distribuição de nutrientes. Esses bioindicadores nos permitem verificar não apenas a qualidade da água, mas de todo o ecossistema, ajudando no trabalho de restauração.

Fotos: Divulgação MRN




